Tartaruga considerada o animal terrestre mais velho do mundo viveu na época de Charles Darwin, atravessou duas guerras mundiais e resistiu a grandes pandemias. Estudo genético identifica características que podem explicar sua resistência ao envelhecimento
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| Jonathan conserva mecanismos de reparação celular próprios de tartarugas muito mais jovens, diz estudo — Foto: St Helena/PA Media/dpa/picture alliance |
Nascido por volta de 1832, quando o mundo ainda vivia profundas transformações políticas, sociais e científicas, Jonathan atravessou quase dois séculos de história. Contemporâneo do naturalista Charles Darwin, testemunha de duas guerras mundiais e sobrevivente de pandemias como a gripe espanhola e a covid-19, ele continua despertando a curiosidade de cientistas de diferentes países.
Aos impressionantes 194 anos, Jonathan é reconhecido como o animal terrestre vivo mais velho do planeta. Agora, uma pesquisa internacional conseguiu identificar características genéticas que podem ajudar a explicar por que essa tartaruga-gigante apresenta uma resistência tão extraordinária aos efeitos do tempo.
Os resultados foram publicados em 7 de outubro de 2026, na revista científica Science Advances, e revelam mecanismos biológicos associados à preservação das células, à proteção do DNA e ao funcionamento do metabolismo, oferecendo novas perspectivas para os estudos sobre envelhecimento e longevidade.
Uma história que atravessa gerações
Jonathan pertence ao grupo das tartarugas-gigantes originárias das Ilhas Seychelles, no oceano Índico, conhecidas por sua elevada expectativa de vida, que pode ultrapassar um século.
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| Jonathan chegou à ilha de Santa Helena como um presente para o governador local, sir William Grey-Wilson — Foto: St. Helena Presseamt/dpa/picture alliance |
Em 1882, quando já tinha aproximadamente 50 anos, ele foi transportado das Seychelles para a ilha de Santa Helena, território britânico ultramarino localizado no oceano Atlântico, a cerca de 1.860 quilômetros da costa de Angola.
O animal chegou à ilha como presente destinado a William Grey-Wilson, que posteriormente assumiu o governo local. Desde então, Jonathan vive nos jardins da residência oficial do governador, onde permanece há 144 anos.
Sua existência atravessou o reinado da rainha Vitória, o desenvolvimento da eletricidade, a popularização dos automóveis, a chegada do homem à Lua e a revolução tecnológica dos computadores e da internet.
Embora as tartarugas-gigantes sejam naturalmente longevas, Jonathan ultrapassou de maneira excepcional a expectativa de vida habitual desses animais. Essa condição despertou o interesse de pesquisadores dos Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca e Alemanha, que decidiram investigar os mecanismos responsáveis por sua resistência biológica.
Cientistas identificam 287 variantes genéticas
Para compreender os fatores associados à longevidade de Jonathan, a equipe internacional realizou análises de seu material genético, utilizando amostras obtidas de maneira cuidadosa para preservar a saúde do animal.
Os pesquisadores também examinaram o DNA de outras quatro tartarugas-gigantes, de diferentes idades, permitindo comparar as características de Jonathan com as de exemplares mais jovens e de outros animais adultos.
O sequenciamento genético identificou 287 variantes particulares em Jonathan, algumas relacionadas a processos fundamentais para a manutenção da saúde celular.
Entre os mecanismos investigados estão a capacidade de reparar danos no DNA, o controle de processos inflamatórios, a regulação do metabolismo, a resposta ao estresse celular e a proteção contra o desenvolvimento de tumores.
Essas funções desempenham papéis importantes na preservação do organismo. Com o avanço da idade, normalmente ocorre uma redução gradual da eficiência desses sistemas, favorecendo o aparecimento de doenças e o comprometimento de diferentes órgãos.
No caso de Jonathan, entretanto, os cientistas encontraram indícios de que determinados mecanismos de proteção celular permanecem particularmente preservados, mesmo depois de quase dois séculos de vida.
O segredo pode estar no metiloma
Uma das descobertas mais importantes da pesquisa surgiu da análise do metiloma, conjunto de modificações químicas que ajudam a controlar a atividade dos genes.
Essas modificações, conhecidas como metilação do DNA, funcionam como mecanismos reguladores capazes de influenciar quais genes permanecem ativos ou inativos em determinadas células.
Ao longo do envelhecimento, esses padrões tendem a sofrer alterações, tornando menos precisa a regulação de algumas funções biológicas. Os cientistas chamam parte dessa desorganização de entropia da metilação.
A investigação demonstrou que Jonathan apresenta alterações epigenéticas compatíveis com sua idade avançada em diferentes regiões do genoma. Entretanto, determinadas áreas associadas a funções celulares essenciais conservam padrões surpreendentemente organizados, semelhantes aos encontrados em tartarugas muito mais jovens.
Essa estabilidade foi observada especialmente em regiões ligadas ao funcionamento das mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia nas células, e ao processamento do RNA, molécula fundamental para a expressão das informações genéticas.
Os resultados sugerem que Jonathan consegue preservar, em determinados processos, uma regulação genética de elevada precisão, característica que pode contribuir para reduzir os danos celulares acumulados com o passar dos anos.
Descoberta pode contribuir para pesquisas sobre envelhecimento humano
Para Justin Gerlach, pesquisador da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a preservação de mecanismos ligados à produção de energia e ao reparo do DNA representa um dos aspectos mais impressionantes da investigação.
Segundo o cientista, estruturas responsáveis por funções celulares essenciais costumam apresentar deterioração progressiva durante o envelhecimento. Em Jonathan, porém, parte desses mecanismos permanece excepcionalmente estável.
A descoberta reforça a possibilidade de que a longevidade não esteja associada apenas à presença de genes favoráveis, mas também à capacidade do organismo de conservar o funcionamento adequado desses genes durante a vida.
Stephen Clark, pesquisador e fundador da Fundação Kallel, instituição dedicada ao estudo do envelhecimento, considera que o material genético de Jonathan pode oferecer pistas importantes sobre a resistência celular.
O objetivo dos pesquisadores é compreender se alguns desses mecanismos encontrados nas tartarugas-gigantes poderão, futuramente, orientar o desenvolvimento de tratamentos destinados a reduzir os efeitos do envelhecimento e prevenir doenças relacionadas à idade.
Apesar do entusiasmo, os cientistas destacam que ainda serão necessários novos estudos para determinar até que ponto essas características genéticas explicam a longevidade de Jonathan. Também não há evidências de que os mecanismos identificados possam ser reproduzidos diretamente em seres humanos.
A combinação entre genética, ambiente, cuidados recebidos ao longo da vida e características individuais continua sendo considerada importante para explicar sua sobrevivência excepcional.
Enquanto a ciência procura compreender os mecanismos que sustentam sua longevidade, Jonathan permanece na ilha de Santa Helena como um verdadeiro testemunho vivo da história.
Com quase dois séculos de existência, a tartaruga que nasceu antes de inúmeras invenções que transformaram a humanidade pode agora contribuir para uma das maiores ambições da medicina moderna: compreender como envelhecer com mais saúde e qualidade de vida.
Fonte: G1

