Inteligência artificial do Piauí recebe mais de 150 pedidos de boletins de ocorrência por dia pelo WhatsApp

Desenvolvida no próprio estado, tecnologia funciona 24 horas, identifica situações de emergência e agiliza registros policiais; sistema já realizou quase 200 mil atendimentos emergenciais e integra projeto de soberania digital do governo piauiense

Imagem: Divulgação


O Piauí vem utilizando a inteligência artificial para transformar o atendimento à população na área da segurança pública. Por meio do WhatsApp, os cidadãos podem registrar ocorrências, apresentar denúncias anônimas e solicitar atendimento emergencial sem precisar se deslocar até uma delegacia ou acessar plataformas tradicionais. O serviço funciona 24 horas por dia e consegue interpretar tanto mensagens escritas quanto áudios.

Batizada de BO Fácil, a ferramenta utiliza inteligência artificial para conduzir os atendimentos, organizar as informações prestadas pelos usuários e encaminhar os casos aos setores responsáveis. O sistema também identifica relatos que exigem atenção imediata, especialmente aqueles relacionados à violência doméstica, desaparecimento de pessoas e ameaças em ambientes escolares.

Os números demonstram a dimensão alcançada pela iniciativa. Desde seu lançamento, em junho de 2025, até meados de outubro de 2026, o BO Fácil contabilizou 195.382 atendimentos emergenciais, 75.438 solicitações de registro de ocorrência e 9.512 denúncias anônimas.

Em média, são aproximadamente 414 atendimentos emergenciais e 156 solicitações de boletins de ocorrência diariamente.

A tecnologia é resultado de um projeto desenvolvido pelo governo do Piauí em parceria com instituições acadêmicas e empresas privadas. Diferentemente de sistemas que dependem diretamente de plataformas internacionais, como ChatGPT, Gemini e Claude, o serviço utiliza o Soberano 1, modelo de linguagem criado no âmbito do projeto SoberanIA e executado em infraestrutura tecnológica do próprio estado.

A iniciativa integra um processo mais amplo de modernização da administração pública piauiense. No Ranking de Competitividade dos Estados de 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) e pela Tendências Consultoria, o Piauí apareceu na primeira posição nacional no indicador de oferta de serviços públicos digitais.

Como funciona o registro de ocorrências pelo WhatsApp

O funcionamento do BO Fácil foi desenvolvido para proporcionar uma experiência semelhante a uma conversa convencional pelo WhatsApp, utilizando o número oficial do BO Fácil no Piauí é 0800 086 0190.

Ao iniciar o atendimento, o cidadão encontra três possibilidades: registrar uma ocorrência policial, encaminhar uma denúncia anônima ou solicitar atendimento emergencial.

No caso dos registros de ocorrência, a inteligência artificial conduz uma entrevista com perguntas sobre o fato comunicado. O sistema solicita informações como a natureza do acontecimento, a data, o horário e o local, permitindo inclusive o compartilhamento da localização diretamente pelo aplicativo.

Conforme as respostas, a ferramenta apresenta novos questionamentos para reunir detalhes necessários ao registro.

Em uma situação de roubo de celular, por exemplo, a inteligência artificial pode solicitar informações sobre a marca, o modelo do aparelho e outras características que auxiliem na identificação do objeto.

Uma das principais funcionalidades é a possibilidade de realizar o atendimento por mensagens de áudio, facilitando o acesso de pessoas com dificuldades para escrever ou que estejam emocionalmente abaladas.

Segundo Flávio Nogueira, gestor de sistemas da Polícia Civil do Piauí, a proposta é tornar o serviço acessível ao maior número possível de cidadãos, independentemente da familiaridade com ferramentas digitais.

A inteligência artificial interpreta as informações recebidas, organiza o relato e produz uma descrição estruturada da ocorrência.

Ao concluir essa etapa, o cidadão recebe um documento em PDF comprovando a solicitação. Entretanto, esse comprovante ainda não corresponde ao boletim de ocorrência oficial.

Policiais continuam responsáveis pela validação dos boletins

Apesar de automatizar grande parte do atendimento, o BO Fácil não elimina a participação dos profissionais da segurança pública.

Depois que a inteligência artificial reúne e organiza as informações, o conteúdo é disponibilizado aos policiais civis responsáveis pela conferência e validação dos registros.

As conversas realizadas pelo sistema ficam armazenadas no GovChat, plataforma utilizada para gerenciar os atendimentos.

Na área destinada aos profissionais da Polícia Civil, os agentes encontram as informações já estruturadas, incluindo uma classificação preliminar da natureza da ocorrência, como furto, roubo ou ameaça.

O sistema também indica a unidade policial responsável pela apuração dos fatos.

Após a análise e a formalização do registro no sistema oficial, o cidadão recebe pelo próprio WhatsApp o boletim de ocorrência em PDF, com assinatura eletrônica e identificação da delegacia encarregada do caso.

Dessa maneira, a inteligência artificial assume tarefas de coleta e organização das informações, enquanto os policiais permanecem responsáveis pelos procedimentos oficiais de validação.

Tecnologia identifica casos graves e aciona atendimento emergencial

Uma das características mais relevantes do BO Fácil é sua capacidade de interpretar o contexto das mensagens e reconhecer situações que demandam providências urgentes.

O sistema não se limita a executar comandos previamente definidos. A inteligência artificial analisa o conteúdo do relato e pode identificar que determinada ocorrência exige atendimento diferente daquele inicialmente escolhido pelo usuário.

Isso significa que uma pessoa pode iniciar o procedimento para registrar um boletim convencional, mas, durante a conversa, a tecnologia identificar elementos que indiquem risco imediato.

Nessas circunstâncias, o atendimento pode ser redirecionado para os canais emergenciais.

Entre as situações tratadas com maior prioridade estão casos de violência contra mulheres e crianças, desaparecimentos, violência escolar e ameaças a instituições de ensino.

Segundo Flávio Nogueira, determinadas categorias recebem níveis mais elevados de criticidade justamente para permitir uma análise mais rápida pelas autoridades.

Quando o cidadão seleciona diretamente a opção de atendimento emergencial, a solicitação é direcionada ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), onde um profissional assume o atendimento desde o início, sem depender de uma conversa prévia com a inteligência artificial.

O procedimento permite que situações graves sejam encaminhadas aos responsáveis pela resposta policial.

Denúncias anônimas também podem ser encaminhadas pelo aplicativo

Outra funcionalidade disponibilizada pelo BO Fácil é o recebimento de denúncias anônimas.

O cidadão pode comunicar informações sobre possíveis práticas criminosas utilizando texto ou áudio, sem precisar se identificar no relato encaminhado às autoridades.

A inteligência artificial interpreta a mensagem, transcreve o conteúdo quando necessário e organiza os dados para análise.

De acordo com o funcionamento informado pela Polícia Civil, os responsáveis pela apuração recebem apenas o conteúdo da denúncia, acompanhado de informações como data e horário, sem dados de identificação do denunciante.

Posteriormente, o material é encaminhado às agências de inteligência da Secretaria de Segurança Pública e da Polícia Civil, que avaliam as informações e a necessidade de eventuais investigações.

Soberano 1: a inteligência artificial desenvolvida no Piauí

O funcionamento do BO Fácil está diretamente relacionado ao Soberano 1, modelo de inteligência artificial generativa desenvolvido no âmbito do projeto SoberanIA.

A iniciativa começou a ser estruturada em 2023, quando o Conselho de Transformação Digital do Piauí, presidido pelo governador Rafael Fonteles (PT), estabeleceu diretrizes para ampliar o uso de tecnologias avançadas na administração pública.

Uma das decisões foi investir no desenvolvimento de uma inteligência artificial própria, em vez de depender exclusivamente da contratação de serviços oferecidos por empresas internacionais.

Nesse processo, o governo estadual reorganizou sua estrutura tecnológica com a criação da Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí (Etipi), que substituiu a antiga Agência de Tecnologia da Informação (ATI).

Entre 2023 e 2024, aproximadamente 70 pesquisadores, incluindo profissionais com mestrado, doutorado e experiência em grandes empresas de tecnologia, participaram dos estudos e do desenvolvimento da ferramenta.

O trabalho contou com a atuação da empresa brasileira Amadeus e do Piauí Instituto de Tecnologia (PIT).

As equipes desenvolveram as bases de treinamento, organizaram os conjuntos de dados e estabeleceram critérios para avaliar o desempenho do modelo em português brasileiro.

O processo envolveu aproximadamente 100 bilhões de tokens em português, unidades de informação utilizadas no treinamento de sistemas de inteligência artificial.

Concluído em meados de 2025, o Soberano 1 possui aproximadamente 32 bilhões de parâmetros, dimensão considerada menor quando comparada aos modelos internacionais de maior capacidade, que podem alcançar a casa dos trilhões de parâmetros.

Essa característica, entretanto, faz parte da estratégia adotada pelos desenvolvedores.

Em vez de competir diretamente com sistemas de uso geral, o governo piauiense pretende especializar a ferramenta nas necessidades da administração pública brasileira, incluindo segurança, saúde, educação, licitações e gestão governamental.

O presidente da Etipi, Ellen Gera, compara a diferença entre os modelos às categorias de peso do boxe, destacando que a proposta do SoberanIA não é disputar diretamente com as maiores plataformas internacionais, mas atender a finalidades específicas.

Inteligência artificial já participa de mais de 800 serviços públicos

O Soberano 1 não está restrito ao atendimento policial.

A tecnologia já é utilizada em diferentes atividades da administração estadual e integra um conjunto de mais de 800 serviços públicos digitais.

Uma das aplicações é o Regula Fácil, lançado em julho de 2026, que permite aos cidadãos utilizar o WhatsApp para solicitar agendamentos de consultas especializadas e exames na rede estadual de saúde.

Segundo a Etipi, a experiência acumulada no desenvolvimento do BO Fácil possibilitou que a nova plataforma fosse construída em apenas cinco dias, sem necessidade de contratação de equipes externas adicionais.

Na educação, o sistema também auxilia professores na preparação de aulas e na organização de conteúdos pedagógicos.

Outras aplicações incluem ferramentas para elaboração de documentos relacionados a licitações e sistemas capazes de analisar e cruzar informações de currículos no programa Piauí Oportunidades.

A inteligência artificial também funciona como assistente em centenas de serviços estaduais, orientando os cidadãos sobre procedimentos e indicando os canais adequados para cada solicitação.

Entretanto, nem todos esses atendimentos são realizados integralmente de maneira automatizada. Em diversas situações, a tecnologia atua apenas na orientação inicial, enquanto as demais etapas continuam dependendo dos setores administrativos responsáveis.

Governo investe milhões em infraestrutura própria

Para manter o funcionamento do SoberanIA, o governo estadual utiliza um centro de processamento de dados próprio, adaptado para executar sistemas de inteligência artificial.

Essa estrutura também abriga informações e serviços considerados essenciais, como a folha de pagamento dos servidores estaduais e bases de dados relacionadas ao Detran, à saúde e à educação.

O avanço das aplicações de inteligência artificial, porém, aumentou significativamente a demanda sobre a infraestrutura disponível.

Segundo Ellen Gera, a capacidade de processamento inicialmente contratada para atender às necessidades dos próximos três ou quatro anos já foi praticamente consumida em 2026.

Diante desse crescimento, a previsão apresentada pela gestão estadual é dobrar a capacidade do data center em 2027.

Os investimentos integram o programa Piauí Mais Digital, que dispõe de aproximadamente US$ 60 milhões destinados a iniciativas envolvendo infraestrutura tecnológica, segurança da informação, inteligência artificial e economia digital.

Desse montante, a estimativa é de que o desenvolvimento e a operação do SoberanIA representem investimentos entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

Economia e independência tecnológica motivaram a criação do sistema

A decisão de desenvolver uma inteligência artificial própria está fundamentada em três objetivos principais: redução de custos operacionais, possibilidade de ampliar as aplicações e preservação do controle sobre informações públicas.

No aspecto financeiro, a gestão estadual considera que a contratação de serviços externos de inteligência artificial pode gerar despesas elevadas conforme aumenta o volume de utilização.

Plataformas comerciais geralmente cobram pelo processamento de informações, utilizando sistemas de medição baseados na quantidade de tokens consumidos.

Com uma estrutura própria, o governo continua arcando com despesas de equipamentos, energia, manutenção e pessoal especializado, mas reduz a dependência de pagamentos por consultas realizadas em sistemas externos.

De acordo com Ellen Gera, apenas uma aplicação interna já proporcionou economia estimada em R$ 40 mil mensais, valor que seria destinado a fornecedores de tecnologia.

Os investimentos integram o programa Piauí Mais Digital, que dispõe de aproximadamente US$ 60 milhões destinados a iniciativas envolvendo infraestrutura tecnológica, segurança da informação, inteligência artificial e economia digital.

Desse montante, a estimativa é de que o desenvolvimento e a operação do SoberanIA representem investimentos entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.

Economia e independência tecnológica motivaram a criação do sistema

A decisão de desenvolver uma inteligência artificial própria está fundamentada em três objetivos principais: redução de custos operacionais, possibilidade de ampliar as aplicações e preservação do controle sobre informações públicas.

No aspecto financeiro, a gestão estadual considera que a contratação de serviços externos de inteligência artificial pode gerar despesas elevadas conforme aumenta o volume de utilização.

Plataformas comerciais geralmente cobram pelo processamento de informações, utilizando sistemas de medição baseados na quantidade de tokens consumidos.

Com uma estrutura própria, o governo continua arcando com despesas de equipamentos, energia, manutenção e pessoal especializado, mas reduz a dependência de pagamentos por consultas realizadas em sistemas externos.

De acordo com Ellen Gera, apenas uma aplicação interna já proporcionou economia estimada em R$ 40 mil mensais, valor que seria destinado a fornecedores de tecnologia.

O presidente da Etipi reconhece, contudo, que os investimentos necessários para desenvolver e manter uma inteligência artificial própria são elevados e que o retorno financeiro ocorre gradualmente.

Outro benefício apontado é a possibilidade de aproveitar a mesma tecnologia em diferentes áreas governamentais.

Depois de concluída a estrutura principal, novas aplicações podem ser desenvolvidas e adaptadas para atender necessidades específicas, reduzindo o tempo de implantação de serviços.

Essa estratégia explica a expansão do Soberano 1 para setores como saúde, educação, segurança pública e gestão administrativa.

Proteção de dados e soberania digital são prioridades

Além dos aspectos financeiros e operacionais, o governo do Piauí apresenta a soberania digital como um dos principais fundamentos do projeto.

A intenção é ampliar o controle estatal sobre o processamento de informações sensíveis e reduzir a dependência de plataformas tecnológicas estrangeiras.

Na avaliação da Etipi, dados relacionados à segurança pública, saúde e decisões administrativas exigem cuidados especiais, principalmente quando envolvem informações pessoais e documentos governamentais.

Entre os exemplos estão relatos de violência doméstica, investigações policiais, informações médicas e documentos relacionados a procedimentos administrativos.

O compartilhamento desses conteúdos com sistemas externos pode representar riscos que precisam ser considerados pelos órgãos públicos.

O presidente da Etipi também destaca a preocupação com a continuidade dos serviços essenciais.

Na visão da gestão estadual, depender integralmente de fornecedores externos significa estar sujeito a alterações contratuais, limitações técnicas ou interrupções capazes de comprometer sistemas importantes para o funcionamento da administração.

Por esse motivo, a estratégia adotada pelo Piauí busca manter a infraestrutura e o processamento das informações sob controle do próprio estado.

Governo negocia expansão da inteligência artificial para outros estados e países

Depois de implantar o Soberano 1 em diferentes setores da administração estadual, o governo do Piauí pretende ampliar a utilização da tecnologia para outras instituições públicas e também para o mercado.

Entre as negociações estão tratativas com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), responsável por soluções tecnológicas utilizadas pela administração pública federal.

Uma eventual parceria poderia permitir que o modelo desenvolvido no Piauí fosse disponibilizado para órgãos da União e governos de outros estados, inclusive por meio de estruturas de nuvem soberana.

O compartilhamento desses conteúdos com sistemas externos pode representar riscos que precisam ser considerados pelos órgãos públicos.

O presidente da Etipi também destaca a preocupação com a continuidade dos serviços essenciais.

Na visão da gestão estadual, depender integralmente de fornecedores externos significa estar sujeito a alterações contratuais, limitações técnicas ou interrupções capazes de comprometer sistemas importantes para o funcionamento da administração.

Por esse motivo, a estratégia adotada pelo Piauí busca manter a infraestrutura e o processamento das informações sob controle do próprio estado.

Governo negocia expansão da inteligência artificial para outros estados e países

Depois de implantar o Soberano 1 em diferentes setores da administração estadual, o governo do Piauí pretende ampliar a utilização da tecnologia para outras instituições públicas e também para o mercado.

Entre as negociações estão tratativas com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), responsável por soluções tecnológicas utilizadas pela administração pública federal.

Uma eventual parceria poderia permitir que o modelo desenvolvido no Piauí fosse disponibilizado para órgãos da União e governos de outros estados, inclusive por meio de estruturas de nuvem soberana.

Também existem negociações envolvendo a Amazon Web Services (AWS), que mantém um mercado internacional de soluções tecnológicas, e a operadora Claro, com atuação no segmento corporativo.

O Exército Brasileiro está entre as instituições que avaliam possíveis aplicações da tecnologia em atividades relacionadas à defesa.

A expansão internacional também faz parte dos planos do governo estadual.

Por intermédio da Investe Piauí, agência responsável pela atração de investimentos e promoção de negócios, estão em andamento tratativas para apresentar a inteligência artificial a países integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Entre os mercados considerados estão Angola, Moçambique e Timor-Leste, países que poderiam utilizar aplicações adaptadas às necessidades de seus respectivos serviços públicos.

A estratégia busca aproveitar uma das principais características do Soberano 1: seu desenvolvimento direcionado à língua portuguesa e às particularidades dos serviços governamentais.

Com a ampliação das aplicações e das negociações institucionais, o projeto desenvolvido no Piauí procura consolidar um modelo de inteligência artificial voltado à administração pública, combinando atendimento digital, processamento próprio de informações e possibilidade de utilização em diferentes áreas e países.

Fonte: Tilt UOL 


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