Tragédia em Juiz de Fora expõe falhas no enfrentamento às mudanças climáticas

Especialistas apontam combinação de aquecimento global, cortes em políticas ambientais e ocupação urbana desordenada como fatores centrais do desastre

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os temporais que devastaram a Zona da Mata mineira e deixaram pelo menos 47 mortos, cerca de 3 mil desabrigados e 400 desalojados reacendem o alerta sobre a vulnerabilidade das cidades brasileiras diante das mudanças climáticas. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a tragédia em Juiz de Fora e Ubá é resultado direto da combinação entre eventos climáticos extremos e falhas estruturais no planejamento urbano e na prevenção de desastres.

O geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), afirma que eventos extremos como enxurradas, deslizamentos e cheias acima do normal estão diretamente ligados ao avanço das mudanças climáticas. Segundo ele, o problema não é apenas ambiental, mas também político.

Bombeiros retiram corpo de escombros após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora - Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

Felippe destaca que a ausência de políticas públicas consistentes e o enfraquecimento da pauta ambiental nos últimos anos contribuíram para o agravamento dos riscos. Para o especialista, o negacionismo climático e a visão de que políticas ambientais seriam obstáculos ao crescimento econômico atrasaram medidas preventivas essenciais.

O professor também chama atenção para a desigualdade urbana. Segundo ele, o mercado imobiliário influencia diretamente a ocupação das cidades, empurrando a população de baixa renda para áreas mais vulneráveis a enchentes e deslizamentos. Os bairros com maiores perdas humanas e materiais em Juiz de Fora concentram justamente moradores com menor capacidade de recuperação após a tragédia.

Além disso, áreas de risco já mapeadas continuam ocupadas, enquanto ações de mitigação enfrentam restrições orçamentárias. Levantamento com base em dados oficiais indica redução expressiva de recursos destinados à defesa civil estadual entre 2023 e 2025.

Clima mais quente, chuvas mais intensas

O coordenador-geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi, explica que o aquecimento do Oceano Atlântico tem intensificado a umidade que chega à região. Segundo ele, a temperatura do mar está até 3°C acima da média, o que aumenta a evaporação e, consequentemente, o volume de chuvas.

A localização geográfica de Juiz de Fora, em área montanhosa e suscetível a deslizamentos, agrava o cenário. Em apenas um dia, o município registrou quase todo o volume de chuva esperado para o mês de fevereiro.

Para Seluchi, além de conter emissões globais, o desafio imediato é adaptar as cidades. Ele defende protocolos claros de evacuação, treinamento da população e controle rigoroso da expansão urbana em áreas vulneráveis.

Engenharia e planejamento como caminhos

Na avaliação do professor Matheus Martins, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), soluções de engenharia podem reduzir impactos futuros. Ele cita técnicas como a construção de pôlderes — estruturas que isolam áreas inundáveis e permitem o bombeamento controlado da água — e projetos de macrodrenagem.

Moradores retiram móveis de suas casas após fortes chuvas em Juiz de Fora - Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

Outra medida defendida é a ampliação de áreas verdes e a criação de parques em regiões de várzea, o que aumenta a permeabilidade do solo e reduz o escoamento superficial. Em áreas urbanizadas, cerca de 90% da água da chuva escoa rapidamente, favorecendo alagamentos, enquanto em áreas com vegetação a maior parte é absorvida pelo solo.

Há recursos federais aprovados para contenção de encostas e drenagem urbana no município, dentro do programa Novo PAC, mas parte das obras ainda não foi concluída.

Um alerta para o futuro

Especialistas são unânimes: eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos. A tragédia em Juiz de Fora reforça a necessidade de políticas ambientais estruturadas, planejamento urbano responsável, investimento contínuo em prevenção e fortalecimento da cultura de proteção e resposta a desastres.

Rio sobe acima do nível normal após fortes chuvas em Juiz de Fora - Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

A reconstrução será longa, mas o debate sobre como tornar as cidades mais resilientes diante do novo cenário climático já se impõe como prioridade urgente.

Fonte: Agência Brasil

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem