Escudo das Américas: aliança liderada por Trump mira PCC e CV em ofensiva regional

Coalizão articulada pelos Estados Unidos anuncia medidas contra 24 organizações criminosas; Brasil não integra grupo e mantém posição distinta sobre enquadramento de facções como terroristas

 Escudo das Américas de Trump - Foto: reprodução / Casa Branca

Uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos anunciou uma ação coordenada contra 24 organizações criminosas consideradas pelos países participantes uma ameaça à segurança regional. Entre os grupos incluídos estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), duas das maiores facções criminosas brasileiras.

A iniciativa foi apresentada nesta terça-feira (22), em Nova York, durante os eventos paralelos à 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. O anúncio ocorreu após uma reunião do chamado Escudo das Américas, coalizão criada em março de 2026 por iniciativa do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O Brasil não participou da declaração e não integra a articulação liderada por Washington. A posição brasileira sobre o enfrentamento ao crime organizado também apresenta diferenças em relação à estratégia adotada pelos Estados Unidos, principalmente quanto ao enquadramento jurídico de facções criminosas como organizações terroristas.

Primeira ação conjunta mira 24 organizações

A declaração divulgada após o encontro estabelece como primeira ação conjunta do grupo medidas voltadas contra 24 organizações criminosas. Além do PCC e do Comando Vermelho, a relação inclui cartéis mexicanos, organizações da América Central e grupos armados de outros países da região.

Os governos participantes classificaram essas organizações como uma ameaça imediata e compartilhada à estabilidade regional e anunciaram a intenção de empregar instrumentos previstos em suas respectivas legislações para dificultar a atuação dos grupos.

Entre as medidas previstas estão congelamento de ativos, restrições migratórias e de vistos e responsabilização criminal de pessoas que conscientemente prestem apoio material ou logístico às organizações mencionadas na declaração.

Também foi anunciada a intenção de solicitar ao Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) uma reunião de consulta com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, conhecido como Tratado do Rio ou TIAR.

Quem participou da declaração

A declaração de 22 de setembro teve a participação de 15 governos: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

A composição dos países envolvidos na iniciativa sofreu alterações desde o lançamento do Escudo das Américas, em março. Alguns governos aderiram posteriormente à articulação, ampliando a participação regional na estratégia conduzida pelos Estados Unidos.

O Brasil e o México estão entre os países que permanecem fora da coalizão.

O que é o Escudo das Américas

O Escudo das Américas — Shield of the Americas, em inglês — foi criado pelo governo Trump como um mecanismo de cooperação regional voltado principalmente ao enfrentamento do narcotráfico, de cartéis e de outras organizações criminosas transnacionais.

A coalizão foi lançada em março de 2026 e passou a reunir governos dispostos a ampliar a cooperação com Washington na área de segurança.

Na reunião realizada em Nova York, Trump pediu aos países participantes que adotassem medidas contra as 24 organizações já designadas pelos Estados Unidos dentro de sua política de combate a grupos criminosos considerados terroristas ou narcoterroristas.

Trump defende endurecimento contra cartéis

Horas antes da reunião, Trump abordou o narcotráfico durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas e voltou a defender uma estratégia mais dura contra cartéis e organizações criminosas na América Latina.

Posteriormente, durante o encontro do Escudo das Américas, o presidente americano afirmou que seu governo considera esses grupos uma ameaça à segurança de todo o continente e defendeu maior cooperação regional para combatê-los.

O governo Trump tem ampliado desde 2025 o uso da classificação de organizações criminosas como grupos terroristas, instrumento que permite aos Estados Unidos aplicar mecanismos jurídicos, financeiros e migratórios mais abrangentes contra seus integrantes e apoiadores.

Brasil fica fora da coalizão

O governo brasileiro não participou da formação do Escudo das Américas e também não assinou a declaração divulgada em Nova York.

A decisão envolvendo PCC e Comando Vermelho ganhou repercussão no Brasil porque as duas organizações têm origem e forte atuação no território nacional, embora também mantenham conexões internacionais.

Segundo reportagens publicadas após o encontro, integrantes do governo brasileiro não haviam sido previamente informados de que PCC e CV seriam incluídos na ação coordenada anunciada pelos países participantes.

O governo brasileiro vem defendendo a cooperação internacional no combate ao crime organizado por meio de instrumentos de inteligência, investigação financeira e operações entre autoridades, ao mesmo tempo em que enfatiza o respeito à soberania dos países.

Lula defendeu soberania durante discurso na ONU

A reunião da coalizão ocorreu no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Em sua manifestação, Lula defendeu o multilateralismo e a soberania dos Estados e criticou interferências externas nos assuntos internos dos países. Ao abordar a posição internacional brasileira, afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

O presidente também tratou do combate ao crime organizado e defendeu que o Brasil preserve sua responsabilidade sobre a proteção de suas fronteiras e da população, embora mantenha mecanismos de cooperação internacional.

Dessa forma, os dois governos apresentaram abordagens diferentes para a segurança regional: Washington procura consolidar uma coalizão de países para adoção de medidas coordenadas contra organizações classificadas pelos Estados Unidos como terroristas, enquanto Brasília enfatiza a cooperação internacional associada à autonomia das instituições nacionais.

PCC e CV ganham novo foco internacional

A inclusão do PCC e do Comando Vermelho entre as organizações atingidas pela iniciativa amplia a dimensão internacional das medidas adotadas contra as duas facções.

A declaração prevê que cada país participante utilize seus próprios mecanismos jurídicos para implementar ações contra integrantes, associados e pessoas que prestem apoio às organizações listadas.

Isso significa que a decisão do Escudo das Américas não modifica automaticamente o enquadramento jurídico dessas facções dentro do Brasil.

A legislação brasileira possui critérios próprios para caracterização do crime de terrorismo. Por isso, a classificação atribuída pelos Estados Unidos ou por outros governos não altera, por si só, a definição existente no ordenamento jurídico brasileiro.

Essa diferença conceitual é um dos principais pontos de divergência entre a estratégia adotada pelo governo brasileiro e a política americana para o enfrentamento às grandes organizações criminosas.

Coalizão reforça estratégia regional dos Estados Unidos

O lançamento e a expansão do Escudo das Américas também ocorrem em um contexto de maior atenção do governo Trump ao papel dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.

A política externa americana tem buscado ampliar a cooperação com governos da região em temas como narcotráfico, crime transnacional e segurança.

Analistas têm relacionado essa estratégia às tradicionais discussões sobre a influência dos Estados Unidos nas Américas e à Doutrina Monroe, formulada no século XIX. Essa associação, entretanto, representa uma interpretação da orientação geopolítica de Washington e não uma definição formal do Escudo das Américas.

Com a primeira ação conjunta contra 24 organizações criminosas, a coalizão passa de uma articulação política para a tentativa de coordenar medidas financeiras, migratórias e criminais entre diferentes países.

Para o Brasil, a inclusão de PCC e Comando Vermelho coloca duas das principais facções nacionais no centro de uma estratégia internacional de segurança da qual o governo brasileiro, até o momento, não participa.

Fonte: IG

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