E-mails encontrados pela Polícia Federal indicam que conta identificada com o nome do candidato à Presidência estava associada ao mesmo perfil bancário utilizado por Willer Tomaz; investigação também aponta viagens em jatos executivos pagas por empresas do advogado. Ambos negam qualquer relação financeira.
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| O advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL) Imagem: Reprodução / WillerTomaz via X |
Documentos obtidos pela Polícia Federal (PF) durante a Operação Sem Desconto, que investiga um esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), revelaram uma possível ligação bancária entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, e o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro.
Segundo reportagem publicada neste sábado (10) pelo UOL, assinada pelos jornalistas Fábio Serapião e Natália Portinari, mensagens eletrônicas encontradas pelos investigadores indicam que uma conta identificada com o nome de Flávio Bolsonaro estava vinculada ao mesmo perfil de acesso bancário associado ao advogado e a suas empresas no Santander.
O material integra os documentos analisados pela PF após o acesso a informações armazenadas na conta do iCloud de Willer Tomaz. Tanto o senador quanto o advogado negam a existência de qualquer vínculo financeiro entre eles e afirmam manter apenas uma relação de amizade.
E-mails revelam associação de conta bancária
Entre os documentos examinados pela Polícia Federal está uma troca de mensagens entre funcionários do escritório de Willer Tomaz e representantes do Santander, realizada em 22 de maio de 2025.
Na ocasião, Fayla Zulmira Menezes, funcionária do advogado, solicitou ao banco que desvinculasse uma conta identificada como pertencente a Flávio Bolsonaro do perfil de usuário principal, denominado master, associado a Tomaz.
O pedido ocorreu no contexto de procedimentos bancários envolvendo a Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual o advogado é sócio.
Naquele mesmo dia, o Santander respondeu confirmando que a conta identificada com o nome do senador havia sido excluída da vinculação solicitada.
A movimentação aconteceu aproximadamente um mês depois do início da Operação Sem Desconto, investigação que apura um esquema de descontos associativos irregulares em benefícios previdenciários, com valores investigados que podem alcançar R$ 6,3 bilhões.
No sistema bancário para pessoas jurídicas do Santander, diferentes usuários podem receber autorização para acessar e movimentar contas empresariais. O perfil master possui poderes mais amplos de administração, enquanto os usuários secundários têm suas operações limitadas pelas permissões concedidas.
Para os investigadores, a documentação indica que a conta identificada como de Flávio Bolsonaro estava associada ao mesmo cadastro principal utilizado para administrar outras contas relacionadas a Willer Tomaz e à Alcazar Holdings.
A Polícia Federal considera necessário aprofundar a análise das movimentações financeiras do advogado, de suas empresas e das relações mantidas com agentes públicos.
Os documentos, entretanto, não demonstram, por si só, que o senador tenha movimentado recursos provenientes das fraudes investigadas no INSS.
Advogado está na mira da Operação Sem Desconto
Willer Tomaz foi alvo de busca e apreensão em agosto deste ano, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A medida foi autorizada no âmbito das investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro desviado de aposentadorias, envolvendo possíveis benefícios financeiros destinados ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado.
De acordo com a PF, empresas, escritórios e estruturas patrimoniais ligados ao advogado teriam funcionado como uma rede de suporte financeiro e logístico para pessoas relacionadas ao esquema.
Os investigadores identificaram movimentações envolvendo imóveis, aeronaves, pagamentos e operadores financeiros que poderiam ter sido utilizados para atender interesses de agentes públicos.
Nesse contexto, a relação entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro passou a integrar uma das linhas de aprofundamento da investigação, especialmente após a identificação dos e-mails bancários e de despesas de viagens custeadas por empresas do advogado.
Tomaz também possui antecedentes de investigação em outro caso de repercussão nacional. Em 2017, chegou a ser preso em um inquérito relacionado a suspeitas de pagamento de propina pela JBS, mas a denúncia apresentada posteriormente foi rejeitada por insuficiência de provas.
Empresas do advogado pagaram viagens internacionais de Flávio Bolsonaro
Além da documentação bancária, a Polícia Federal identificou despesas relacionadas a viagens de Flávio Bolsonaro e familiares em aeronaves executivas, realizadas em 2024 e 2025, que teriam sido custeadas por duas empresas portuguesas ligadas a Willer Tomaz.
As companhias são a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, e a Cathedral Holdings, também registrada em Portugal.
O advogado afirma ser o único sócio da Alcazar e possuir uma participação de 24% na Cathedral.
Segundo a investigação, a Alcazar arcou com voos realizados em um jato Legacy 650, de matrícula PP-NLR, aeronave da qual a empresa detém um terço da propriedade.
Outra participação no mesmo avião pertenceu à Prime You, companhia que teve entre seus sócios Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso desde março de 2026.
Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro, sua esposa, suas duas filhas e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília a bordo dessa aeronave.
O advogado reconheceu a viagem e declarou que utilizou horas de voo correspondentes à sua participação no avião, tendo os demais passageiros viajado como convidados.
A Cathedral Holdings, por sua vez, aparece em registros de pagamentos à NetJets, empresa especializada na comercialização de cotas e pacotes de horas de utilização de jatos executivos.
Entre os deslocamentos identificados estão viagens realizadas em abril de 2025, entre Lisboa e Nice, no sul da França, além de trajetos feitos em maio daquele ano, quando os dois viajaram acompanhados de familiares.
O roteiro incluiu deslocamentos entre Cascais, nas proximidades de Lisboa, Nice e Paris.
Conforme levantamento divulgado anteriormente pelo jornal O Globo, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz realizaram pelo menos cinco viagens internacionais juntos durante o primeiro semestre de 2025.
A relação pessoal entre os dois também inclui um safári realizado na África em março do ano passado e a utilização, pelo senador, de um apartamento pertencente ao advogado em São Paulo durante a campanha presidencial de 2026.
Flávio já reconheceu publicamente a amizade com Tomaz, mas sustenta que ela não envolve negócios ou movimentações financeiras conjuntas.
PF investiga possível estrutura financeira ligada a agentes públicos
A investigação sobre Willer Tomaz ganhou força a partir da apuração das relações financeiras do advogado com o senador Weverton Rocha.
Os investigadores identificaram mensagens e registros que apontariam para uma estrutura de pagamentos e administração de despesas associadas ao parlamentar maranhense.
Fayla Zulmira Menezes, a mesma funcionária responsável pelo e-mail enviado ao Santander envolvendo a conta identificada com o nome de Flávio Bolsonaro, também aparece em documentos relacionados à movimentação financeira de Weverton.
Segundo a PF, ela teria participado da organização de uma contabilidade paralela relacionada ao senador, incluindo pagamentos de despesas, transações imobiliárias e repasses de dinheiro em espécie.
As mensagens examinadas pelos investigadores mencionam operações financeiras de valores milionários e pagamentos realizados por intermédio do escritório de Willer Tomaz.
Diante desses elementos, os investigadores procuram esclarecer se a estrutura empresarial do advogado também teria sido utilizada para custear despesas de outros agentes públicos.
No caso de Flávio Bolsonaro, a apuração considera a associação bancária identificada nos e-mails, as despesas com viagens internacionais e a proximidade pessoal com o advogado.
Até o momento, esses elementos são tratados como indícios que demandam investigação, e não como comprovação de participação do senador nos desvios previdenciários.
Escritório de Flávio também apresenta vínculo indireto com investigado
Outro ponto identificado envolve a estrutura administrativa da Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, com sede em Brasília.
Segundo informações registradas na Receita Federal, o escritório é administrado por Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre Caetano dos Reis, preso no âmbito da investigação sobre as fraudes do INSS.
Alexandre é investigado por prestar serviços de contabilidade a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores financeiros do esquema de descontos irregulares em aposentadorias.
Em entrevista concedida à Agência Pública em 2022, Letícia relatou que havia sido apresentada a Flávio Bolsonaro pelo advogado Willer Tomaz.
A ligação entre os envolvidos passou a integrar o conjunto de informações consideradas na apuração das relações profissionais e financeiras do advogado investigado.
Willer Tomaz também é investigado por operações financeiras com apostas
Além dos desdobramentos relacionados ao INSS, Willer Tomaz é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de apostas.
Documentos apresentados pela própria defesa em uma ação judicial contra a empresa Blaze apontam que o advogado realizou apostas que totalizaram R$ 6,6 bilhões entre janeiro de 2025 e julho de 2026.
Na ação indenizatória, seus representantes alegaram que ele sofre de ludopatia, transtorno caracterizado pelo comportamento compulsivo relacionado a jogos de azar.
A defesa informou prejuízos de R$ 188,5 milhões no período e solicitou judicialmente a restituição de valores transferidos à plataforma.
O volume de transações financeiras passou a integrar as informações examinadas pelas autoridades nas investigações envolvendo o advogado.
Flávio Bolsonaro nega compartilhamento de conta e acusa divulgação de informações falsas
Procurada pelo UOL, a assessoria de Flávio Bolsonaro rejeitou categoricamente a existência de qualquer conta bancária administrada em conjunto com Willer Tomaz ou empresas ligadas ao advogado.
Segundo a manifestação, o senador nunca autorizou a utilização de seu nome em um perfil bancário controlado por Tomaz e não teria criado qualquer cadastro no sistema Rede Loto, também mencionado nas apurações.
A equipe do candidato classificou as informações como falsas e afirmou que sua divulgação, durante o segundo turno da eleição presidencial, teria a finalidade de prejudicar politicamente o senador.
A assessoria também advertiu que pretende buscar responsabilização criminal contra eventuais responsáveis pela divulgação de notícias que considera inverídicas.
Defesa de Willer Tomaz também rejeita irregularidades
Em manifestação encaminhada à reportagem, Willer Tomaz negou ser proprietário da conta bancária mencionada nos documentos e afirmou que jamais criou qualquer usuário em nome de Flávio Bolsonaro.
O advogado declarou que mantém com o senador exclusivamente uma relação de amizade, sem vínculos comerciais ou financeiros.
Sua defesa contestou as interpretações atribuídas aos documentos obtidos pela Polícia Federal e afirmou que as acusações estariam sendo utilizadas no contexto da disputa presidencial.
Tomaz também informou que poderá adotar medidas judiciais contra pessoas ou veículos responsáveis pela divulgação de informações que considere falsas ou obtidas ilegalmente.
Apesar das negativas, a Polícia Federal aponta a necessidade de aprofundar a análise dos documentos bancários, das movimentações empresariais e das despesas relacionadas aos agentes públicos mencionados.
A investigação permanece voltada ao esclarecimento da origem e da destinação dos recursos movimentados pelas estruturas financeiras sob suspeita, bem como à identificação de eventuais beneficiários do esquema investigado na Operação Sem Desconto.
Fonte: UOL
