Crise bancária derruba presidente do Paraguai; entenda o esquema financeiro que levou à renúncia de Santiago Peña

Crise bancária derruba presidente do Paraguai; entenda o esquema financeiro que levou à renúncia de Santiago Peña

Santiago Peña, economista e presidente do Paraguai, foi ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes. Eleito pelo Partido Colorado, Peña assumiu a Presidência em 2023. — Foto: REUTERS

O colapso de uma das instituições financeiras que mais cresceram no Paraguai desencadeou uma crise sem precedentes recentes no país e culminou na renúncia do presidente Santiago Peña, nesta quinta-feira (5 de novembro). O mandatário deixou o cargo diante da crescente pressão política provocada pela quebra do banco digital Ueno, instituição com a qual manteve vínculos empresariais antes e durante parte de seu mandato.

A crise ultrapassou o setor financeiro e atingiu diretamente milhões de paraguaios, incluindo trabalhadores, aposentados e beneficiários da previdência social. Com contas bloqueadas, agências fechadas e dificuldades para movimentar recursos, clientes passaram a enfrentar incertezas sobre a recuperação de suas economias.

No centro do escândalo estão suspeitas de concessão irregular de empréstimos a empresas relacionadas ao próprio banco, operações financeiras sob investigação, aplicações milionárias de recursos públicos e possíveis conflitos de interesses envolvendo autoridades responsáveis pela administração e fiscalização do sistema bancário. 

Como funcionava o esquema financeiro investigado

O principal foco das investigações está na utilização de recursos do Ueno para financiar empresas vinculadas aos seus próprios controladores. Esse tipo de operação, conhecido como empréstimo a partes relacionadas, exige controles específicos para evitar que os administradores de uma instituição financeira utilizem o dinheiro dos depositantes em benefício de empresas do mesmo grupo econômico.

Segundo as apurações das autoridades paraguaias, o banco teria concedido financiamentos de elevado valor a companhias ligadas ao Grupo Vázquez, responsável pelo controle da instituição, sem observar adequadamente as exigências de garantias, documentação e limites de exposição ao risco.

O problema se agravou porque parte dessas operações não teria sido corretamente informada aos órgãos de fiscalização. Além disso, despesas teriam sido registradas indevidamente como ativos, produzindo uma avaliação da situação patrimonial superior à efetivamente existente.

Na prática, as inconsistências contábeis poderiam transmitir a impressão de que o banco possuía uma estrutura financeira mais sólida do que realmente tinha. Quando os registros foram revisados, tornou-se evidente a insuficiência de capital para cumprir as exigências regulatórias.

Após os ajustes, o índice de solvência do Ueno caiu para menos de 50% do mínimo legal exigido. A constatação levou o Banco Central do Paraguai a determinar, na terça-feira (3), o início do processo de resolução bancária, com suspensão das operações e medidas destinadas à liquidação da instituição.

O episódio também levantou suspeitas sobre uma operação envolvendo a venda de uma carteira de ativos de empresa relacionada ao Grupo Vázquez. Os investigadores procuram esclarecer se o banco participou indiretamente de seu financiamento, hipótese anteriormente negada pela instituição.

As suspeitas ainda dependem de apuração judicial para determinar a responsabilidade individual dos envolvidos e a eventual prática de crimes financeiros.

Relação de Santiago Peña com o banco ampliou escândalo

A crise adquiriu uma dimensão política especialmente delicada porque Santiago Peña havia integrado o quadro de acionistas do Grupo Vázquez, conglomerado empresarial relacionado ao Ueno.

O presidente mantinha participação societária antes de assumir o governo, em agosto de 2023, e permaneceu como acionista até março de 2025.

Durante sua administração, o Ueno experimentou uma expansão expressiva, conquistando milhões de clientes e recebendo depósitos de órgãos e entidades públicas.

O crescimento acelerado passou a ser questionado pela oposição, principalmente em razão da existência de recursos previdenciários administrados pela instituição e dos vínculos anteriores entre o presidente da República e seus controladores.

Parlamentares levantaram suspeitas de conflito de interesses, utilização inadequada de recursos destinados a aposentadorias e benefícios sociais e possível proteção institucional ao banco por parte das autoridades financeiras.

Peña rejeitou as acusações de envolvimento em irregularidades. Antes de renunciar, sustentava que o caso deveria ser tratado pelas instituições fiscalizadoras e pelo Poder Judiciário, sem interferências políticas.

Entretanto, a combinação entre a quebra do banco, a perda de acesso aos depósitos e os questionamentos sobre a fiscalização intensificou a pressão contra seu governo. 

Banco administrava bilhões em recursos públicos e atendia quase metade da população

Agência do Ueno fechada enquanto parlamentares da oposição avançam com o processo de impeachment do presidente Santiago Peña, a quem responsabilizam pela crise bancária desencadeada pelo colapso da instituição financeira digital, em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: REUTERS/Cesar Olmedo

A dimensão do colapso está relacionada ao papel que o Ueno passou a desempenhar na economia paraguaia.

A instituição possuía aproximadamente 2,9 milhões a 3 milhões de clientes, em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes. Era considerada uma das principais plataformas bancárias digitais do Paraguai e liderava a emissão de cartões de crédito.

O banco também mantinha aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, equivalentes a cerca de R$ 4,63 bilhões, conforme a conversão apresentada nas informações sobre a crise.

Entre esses valores estavam depósitos do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias e outros benefícios, além de recursos de diferentes entidades estatais.

A presença desse dinheiro na instituição transformou sua insolvência em um problema que ultrapassou os investidores privados, atingindo diretamente a administração pública e a segurança financeira de milhares de famílias.

Com a suspensão das operações, os clientes perderam temporariamente o acesso aos aplicativos, cartões e serviços bancários. Agências permaneceram fechadas, enquanto aposentados e trabalhadores procuravam informações sobre a recuperação dos valores depositados.

Em cidades próximas à capital Assunção, clientes se concentraram diante das unidades do Ueno, exigindo explicações e providências.

A impossibilidade de movimentar recursos destinados a despesas essenciais aumentou a insatisfação popular e alimentou manifestações contra o governo.

Oito dirigentes detidos e 27 pessoas investigadas criminalmente

Além das consequências econômicas e políticas, o caso passou a ser investigado criminalmente pelo Ministério Público paraguaio.

Oito dirigentes ligados ao Ueno foram detidos após a expedição de mandados judiciais. Entre os principais investigados está Miguel Vázquez, associado ao comando empresarial da instituição.

As autoridades apresentaram acusações contra 27 pessoas relacionadas ao banco e a empresas vinculadas ao grupo controlador.

Entre os possíveis delitos apurados estão administração desleal, violação de confiança e suspeitas de fraudes envolvendo operações financeiras.

A Justiça também determinou medidas patrimoniais contra investigados, incluindo bloqueios de bens, enquanto os responsáveis pelas investigações procuram identificar o destino dos recursos e a extensão dos prejuízos.

As prisões e acusações não representam condenações definitivas. Caberá ao Judiciário estabelecer se houve efetivamente crimes e quais pessoas participaram das operações consideradas irregulares. 

Crise também provocou a renúncia do presidente do Banco Central

A fiscalização exercida pelo Banco Central do Paraguai tornou-se outro ponto central do escândalo.

Carlos Carvallo, que presidia a autoridade monetária, havia ocupado anteriormente a direção do Ueno, deixando a instituição em agosto de 2023.

Sua passagem pelo banco e posterior nomeação para comandar o órgão responsável pela supervisão do sistema financeiro passaram a ser questionadas por parlamentares, especialmente diante das suspeitas de irregularidades acumuladas durante o período de crescimento da instituição.

A oposição cobrou esclarecimentos sobre a atuação da autoridade monetária e questionou por que os problemas financeiros não haviam sido identificados e solucionados antes de atingirem proporções tão graves.

Pressionado, Carvallo renunciou na terça-feira (3), antes da saída de Santiago Peña.

Ao justificar sua decisão, afirmou que o afastamento contribuiria para reduzir as controvérsias e permitir que o Banco Central e a Superintendência de Bancos conduzissem os procedimentos necessários sem interferências decorrentes da disputa política.

A renúncia, entretanto, não encerrou os questionamentos sobre eventuais falhas de supervisão.

Governo aprovou medidas para devolver dinheiro aos clientes

Antes de deixar a Presidência, Santiago Peña articulou com o Congresso uma resposta emergencial para reduzir os prejuízos provocados pelo fechamento do Ueno.

Na quarta-feira (4), foi promulgada a Lei nº 7.745, que estabeleceu mecanismos para antecipar pagamentos aos depositantes por meio do Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai.

A nova legislação autoriza o pagamento inicial de até 40 salários mínimos mensais por depositante, respeitado o saldo líquido disponível e consideradas as obrigações vencidas do cliente perante o banco.

O procedimento deve ser iniciado em até 24 horas, com previsão de conclusão dos pagamentos antecipados em até cinco dias úteis.

A garantia bancária ordinária prevê cobertura de até 75 salários mínimos por depositante e por instituição financeira, equivalente a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis. Valores que ultrapassarem esse limite dependerão dos mecanismos legais de recuperação e das condições patrimoniais da instituição.

Segundo o Banco Central, os pagamentos poderão ocorrer mediante transferência para contas mantidas em outros bancos. Para clientes que possuíam relacionamento exclusivamente com o Ueno, está prevista a abertura de novas contas para recebimento dos valores. 

A situação dos recursos públicos, especialmente aqueles vinculados à previdência social, exige procedimentos específicos de recuperação e acompanhamento pelas autoridades.

Autoridades tentam evitar contaminação de outros bancos

O fechamento do Ueno também provocou preocupação entre correntistas de outras instituições paraguaias.

Na quarta-feira (4), foram registrados relatos de dificuldades de acesso a aplicativos bancários, em meio à procura por novas contas e à tentativa de transferência de recursos.

A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições trabalhavam para atender ao aumento extraordinário da demanda, enquanto o Banco Central procurou transmitir uma mensagem de estabilidade.

Segundo a autoridade monetária, os problemas identificados no Ueno representam uma situação específica e não significam, necessariamente, comprometimento da saúde financeira dos demais bancos.

O caso também teve repercussões no mercado de capitais, com desvalorização de títulos associados à instituição e aumento das preocupações envolvendo os ativos financeiros paraguaios.

Para investidores e autoridades, a recuperação da confiança dependerá da transparência das investigações, da identificação dos prejuízos e da capacidade de assegurar a restituição dos depósitos.

Renúncia encerra governo de Peña e abre processo de sucessão

Diante da crescente pressão e da ameaça de impeachment, Santiago Peña anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), por meio de uma mensagem divulgada nas redes sociais.

O então presidente afirmou que sua decisão buscava preservar a estabilidade política, a paz social e o funcionamento das instituições democráticas do Paraguai.

Peña também pediu desculpas à população por eventuais falhas durante sua administração, sem assumir responsabilidade direta pelas irregularidades investigadas no Ueno.

A crise provocou a perda de apoio de integrantes do próprio Partido Colorado, legenda que sustentava seu governo.

Mesmo após o anúncio da renúncia, a Câmara dos Deputados aprovou, por 78 votos a zero, o prosseguimento da acusação de impeachment contra o presidente. A decisão encaminhou o caso ao Senado, responsável pela etapa seguinte do julgamento político. 

Com a saída de Peña, a sucessão presidencial deverá ser conduzida conforme os procedimentos constitucionais, com a expectativa de que o vice-presidente Pedro Alliana assuma o comando do Executivo.

Enquanto a crise política avança, permanecem questões fundamentais sobre a atuação dos administradores do banco, a fiscalização exercida pelas autoridades e a destinação de bilhões de reais em recursos públicos.

O episódio expôs os riscos de uma instituição financeira crescer rapidamente, concentrar depósitos de milhões de pessoas e administrar recursos previdenciários sem que seus controles internos e a fiscalização sejam suficientes para prevenir operações potencialmente irregulares.

Para os paraguaios atingidos, a questão mais urgente continua sendo a recuperação de seus depósitos. Já para as instituições do país, o desafio envolve esclarecer as responsabilidades pelo colapso e reconstruir a confiança no sistema financeiro.

Fonte: Reuters

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