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| O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado — Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado |
O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado foi rejeitado na noite desta terça-feira (14), após votação no Senado Federal. O documento, elaborado pelo senador Alessandro Vieira (MDB), acabou derrotado por 6 votos a 4, impedindo o encaminhamento formal das denúncias propostas pela relatoria.
O texto apresentado apontava uma suposta infiltração “explosiva” de organizações criminosas em estruturas do poder público, com destaque para acusações direcionadas a integrantes do Supremo Tribunal Federal. Entre os nomes citados estavam os ministros Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, mencionados em um suposto contexto de “rede de proteção mútua”, conforme descrito no relatório.
De acordo com a investigação conduzida pela CPI, o avanço do crime organizado teria ultrapassado os limites da segurança pública, configurando uma crise institucional com impacto na soberania nacional. O documento sustenta que essas organizações passaram a operar com estruturas sofisticadas, utilizando instituições financeiras e escritórios de advocacia de alto padrão para lavagem de dinheiro e blindagem jurídica de suas atividades.
Ainda segundo a relatoria, haveria elementos que justificariam o indiciamento por crime de responsabilidade, com base na suposta omissão de autoridades da cúpula do Judiciário.
Banco Master no centro das investigações
Um dos principais pontos de tensão do relatório foi a inclusão de pedidos de indiciamento envolvendo integrantes do Judiciário e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O documento cita trechos de perícia realizada no celular do empresário Daniel Vorcaro, ex-gestor do Banco Master, indicando contatos diretos com autoridades. Segundo o relatório, “a perícia realizada no aparelho celular [...] documentou não apenas registros de chamadas telefônicas diretas para o ministro Dias Toffoli, mas também a existência de um convite formal [...] para a celebração do aniversário do magistrado”.
A relatoria também aponta a atuação de Vorcaro e de seu aliado, o empresário Fabiano Zettel, como operadores centrais de um esquema investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. Ambos são alvos de investigações e encontram-se em prisão preventiva.
Lista de citados inclui políticos e autoridades
O relatório ainda apresentou uma lista de nomes relevantes supostamente ligados ao esquema, seja por atuação direta ou por omissão:
- João Carlos Mansur: fundador da operadora financeira Reag, apontado por participação em operações financeiras suspeitas;
- Ibaneis Rocha: citado por suposta omissão deliberada e obstrução de justiça;
- Roberto Campos Neto: não indiciado, mas mencionado por “falha grave de gestão e omissão regulatória”, junto a outros membros do Banco Central;
- Anthony Garotinho: ouvido como testemunha-chave, com contribuições sobre a relação entre política e crime organizado no estado do Rio de Janeiro.
Reações e críticas ao relatório
Durante a sessão, o senador Alessandro Vieira rebateu críticas feitas por ministros do STF ao conteúdo do relatório. Gilmar Mendes classificou o documento como uma “cortina de fumaça” em publicação nas redes sociais. Já Dias Toffoli considerou o texto “aventureiro” e sugeriu responsabilização de quem “abusa do poder para obter votos”.
O parlamentar também declarou que a CPI atuou sob “constante interferência” e que o relatório revela um quadro de “Estado capturado”, destacando que o material poderá servir como base para futuras investigações e ações judiciais.
Balanço final da CPI
A CPI do Crime Organizado encerrou suas atividades após 18 reuniões e 19 depoimentos. Ao longo dos trabalhos, foram apresentados 314 requerimentos, dos quais 204 foram analisados e 178 aprovados.
Entre as medidas autorizadas estiveram 57 convocações, 41 convites, 32 pedidos de informação e 37 quebras de sigilo. Dois desses pedidos, apesar de aprovados, foram posteriormente invalidados por decisões do Supremo Tribunal Federal.
Com a rejeição do relatório final, as conclusões da comissão não terão encaminhamento formal, embora o conteúdo permaneça registrado como parte dos trabalhos investigativos realizados pelo Senado.
Fonte: UOL
