Flávio Bolsonaro teria buscado apoio milionário de Vorcaro para filme sobre Jair Bolsonaro

Mensagens e documentos obtidos pelo Intercept apontam repasses de mais de R$ 61 milhões para produção cinematográfica sobre o ex-presidente; senador admite contato com banqueiro, mas nega favorecimentos

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado e Banco Master


O senador Flávio Bolsonaro teria articulado junto ao banqueiro Daniel Vorcaro um financiamento milionário para a produção do filme “Dark Horse”, obra biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, prevista para estrear em setembro. Segundo informações divulgadas pelo Intercept Brasil, o acordo previa um aporte de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, e ao menos R$ 61 milhões já teriam sido efetivamente pagos entre fevereiro e maio de 2025.

A reportagem afirma que as informações constam em mensagens de WhatsApp, comprovantes de pagamento e documentos analisados pela Polícia Federal. Um dos diálogos teria ocorrido em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, quando ele tentava embarcar para Malta em um jato particular. Pouco depois, o Banco Master teve liquidação decretada em meio a suspeitas de fraude envolvendo carteiras de crédito consideradas podres.

Nas mensagens divulgadas, Flávio Bolsonaro envia conteúdos de visualização única e afirma ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. Vorcaro teria respondido também com mensagem de visualização única, cujo conteúdo não foi recuperado pela perícia da PF. Em seguida, o senador responde: “Amém!”.

Confira o audio:

Entre os documentos citados pelo Intercept estão um comprovante de transferência de US$ 2 milhões e uma planilha contendo o cronograma de pagamentos da produção. Os recursos teriam saído da empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a negócios de Vorcaro, em direção ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos.

A investigação também aponta que o empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e Thiago Miranda teriam atuado como intermediários diretos das operações financeiras. Zettel está preso e é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores financeiros do banqueiro.

Outros nomes mencionados nas tratativas seriam o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro e o deputado Mário Frias, ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro.

As mensagens analisadas pela reportagem abrangem o período entre dezembro de 2024 e novembro de 2025. Segundo o material, o primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro teria ocorrido em 11 de dezembro de 2024, na residência do banqueiro. A partir dali, os contatos teriam se intensificado para garantir o financiamento da obra em dez parcelas de US$ 2,5 milhões.

Em janeiro de 2025, Daniel Vorcaro teria ordenado ao operador Fabiano Zettel que priorizasse os pagamentos ligados ao filme. “Não pode falhar mais”, teria determinado o banqueiro.

Um dos áudios divulgados pelo Intercept, datado de 8 de setembro de 2025, mostra Flávio Bolsonaro demonstrando preocupação com os atrasos nos repasses. “Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um momento muito decisivo aqui do filme. E tem muita parcela para trás. Está todo mundo tenso”, afirma o senador na gravação.

Dias depois, em 22 de setembro, Flávio teria voltado a alertar Vorcaro sobre a situação financeira da produção. Segundo a reportagem, o senador disse que o projeto estava “no limite” e dependia dos recursos para continuar operando. O banqueiro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora”.

As conversas também revelariam a organização de um jantar na casa de Vorcaro com o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro no longa, além do diretor Cyrus Nowrasteh. O encontro estaria previsto para 6 de novembro, mas não há confirmação de que tenha ocorrido.

O SBT News informou que tentou contato com os envolvidos citados na reportagem, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.

Flávio Bolsonaro admite pedido de apoio financeiro, mas nega irregularidades

Em nota oficial, Flávio Bolsonaro confirmou que buscou apoio financeiro de Daniel Vorcaro para a produção do filme sobre o pai, mas negou qualquer tipo de favorecimento, vantagem indevida ou intermediação de interesses junto ao governo.

O senador argumentou que o projeto era privado e sem utilização de recursos públicos. Segundo ele, o contato com Vorcaro ocorreu quando ainda não existiam suspeitas públicas contra o banqueiro.

Na manifestação, Flávio também voltou a defender a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master.

“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero dinheiro público. Zero Lei Rouanet”, declarou o senador.

Ele ainda afirmou que não ofereceu vantagens em troca dos aportes, não promoveu encontros fora da agenda oficial e não recebeu recursos pessoais relacionados às negociações.

Fonte: Cidade Verde

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