Novo Desenrola surge em meio à escalada dos juros e recorde de endividamento das famílias

Selic elevada, spreads bancários e crédito caro ampliam pressão sobre orçamento dos brasileiros; governo aposta em renegociação para conter inadimplência

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O aumento do endividamento das famílias brasileiras voltou ao centro do debate econômico após o lançamento do Novo Desenrola Brasil pelo governo federal. Economistas apontam que a combinação entre a taxa Selic elevada e os altos spreads bancários praticados no país tem agravado a situação financeira da população, especialmente entre os trabalhadores de baixa renda.

O spread bancário, diferença entre os juros pagos pelos bancos para captar recursos e os juros cobrados dos consumidores, alcançou 34,6 pontos percentuais em março deste ano, acima dos 29,7 pontos registrados no mesmo período de 2025. O índice brasileiro está muito acima da média mundial, estimada em cerca de 6 pontos percentuais pelo Banco Mundial.

Para especialistas, o cenário ajuda a explicar o avanço contínuo do endividamento. A professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, avalia que a manutenção da Selic em níveis elevados impacta diretamente os empréstimos concedidos às famílias.

Segundo ela, os juros altos dificultam o funcionamento da economia e pressionam milhões de brasileiros que recorrem ao crédito para complementar despesas básicas do cotidiano, incluindo alimentação, saúde e contas domésticas.

Maria Lourdes também relaciona o problema à precarização das relações de trabalho no país, apontando que parte significativa da população passou a depender mais do crédito diante da instabilidade de renda. Para a economista, o Novo Desenrola pode aliviar temporariamente o orçamento das famílias e gerar algum estímulo econômico.

Atualmente, o Brasil possui a segunda maior taxa de juros reais do mundo, descontada a inflação, com índice de 9,3%, ficando atrás apenas da Rússia, que enfrenta contexto de guerra. Em terceiro lugar aparece o México, com taxa de 5%.

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando os juros básicos em 14,5% ao ano. Apesar do corte, o patamar continua sendo considerado elevado por críticos da política monetária, enquanto o BC sustenta que a medida é necessária para conter a inflação.

Endividamento atinge nova máxima histórica

Dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que o percentual de famílias endividadas no Brasil chegou a 80% em abril, alcançando o quarto mês consecutivo de alta e estabelecendo um novo recorde histórico.

Já o número de famílias com contas em atraso permaneceu relativamente estável, atingindo 29,7%.

O cenário é ainda mais preocupante entre os brasileiros com renda de até três salários mínimos. Nesse grupo, o índice de endividamento alcançou 83,6%, enquanto o percentual de inadimplência chegou a 38,2%.

A professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, afirma que o elevado spread bancário é um dos principais fatores responsáveis pelo agravamento da situação financeira das famílias brasileiras.

Ela observa que os bancos justificam os juros elevados pelo risco de inadimplência, mas pondera que os próprios juros excessivos acabam alimentando o aumento das dívidas, criando um ciclo difícil de interromper.

Levantamento da plataforma World Open Data, com base em dados de 2024, coloca o Brasil como líder mundial em spread bancário, à frente de países como República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.

Cartão de crédito segue como principal vilão

Dados do Banco Central revelam que os bancos cobram das pessoas físicas uma taxa média de juros de 61% ao ano. Para empresas, a taxa média ficou em 24%.

Os juros mais altos do mercado continuam sendo os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Para a professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Mello de Malta, a Selic elevada influencia diretamente todas as demais taxas cobradas no sistema financeiro.

Ela destaca que muitos trabalhadores acabam entrando em uma “bola de neve”, contratando novos empréstimos para quitar dívidas anteriores, o que provoca um endividamento progressivo.

Governo aposta no Novo Desenrola

Diante do avanço das dívidas e da dificuldade de acesso ao crédito, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil, programa voltado para renegociação de débitos de famílias, estudantes e pequenos empreendedores.

A nova etapa do programa terá duração de 90 dias e prevê descontos que podem chegar a 90% sobre as dívidas, além de juros reduzidos e possibilidade de utilização do FGTS para abatimento dos débitos.

A expectativa do governo é facilitar a recuperação financeira das famílias e estimular a retomada do consumo em meio ao cenário de crédito caro e elevado comprometimento da renda dos brasileiros.

Fonte: Agência Brasil 

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