Lula propõe usar emendas parlamentares em orçamento participativo com decisão da população

Projeto enviado ao Congresso prevê que deputados e senadores possam destinar parte de suas emendas para ações escolhidas pelos cidadãos, mediante autorização dos próprios parlamentares

Proposta enviada pela gestão de Lula já gera reação até mesmo na base aliada - Foto: Kayo Magalhães / Câmara



O governo federal encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta que pode alterar a forma de aplicação de parte das emendas parlamentares. A iniciativa, incluída nas mudanças ao Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, prevê a criação de um modelo de orçamento participativo, permitindo que a população decida quais projetos e ações públicas receberão recursos da União.

Pela proposta, o Poder Executivo poderá instituir um processo de consulta popular para definir investimentos financiados com recursos federais. O texto também autoriza que emendas parlamentares individuais de deputados e senadores sejam remanejadas para custear essas iniciativas, desde que haja autorização expressa do parlamentar responsável pelo recurso.

Mesmo abrindo mão da escolha do projeto específico, o congressista continuará tendo o direito de indicar o município que será beneficiado. As regras de funcionamento do novo modelo ainda serão definidas pelo governo, que também estabelecerá quais áreas e políticas públicas poderão receber os recursos no Orçamento de 2027.

A proposta, no entanto, já provoca divergências no Congresso. O líder do PDT na Câmara, deputado Mário Heringer (MG), avalia que a medida enfrenta dificuldades para ser aprovada, por reduzir o controle do Legislativo sobre a destinação das emendas. Em sentido oposto, o vice-líder do governo no Congresso, deputado Hildo Rocha (MDB-MA), declarou apoio à iniciativa, afirmando que o orçamento público deve ampliar a participação popular e reduzir o interesse de parlamentares em exercer influência apenas por meio da distribuição de emendas.

Caso a alteração seja aprovada na Lei de Diretrizes Orçamentárias, a adesão ao modelo continuará sendo facultativa. Em 2027, cada deputado e senador deverá autorizar individualmente o remanejamento de suas emendas para o orçamento participativo.

As emendas parlamentares representam recursos do Orçamento da União destinados por deputados e senadores para obras, serviços e projetos em estados e municípios. Atualmente, as emendas individuais possuem execução obrigatória pelo governo federal, que deve cumprir a indicação feita pelos parlamentares, embora mantenha o controle sobre o calendário de liberação dos recursos.

Desde o início do atual mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido maior participação do Executivo na gestão do orçamento e criticado o aumento da parcela de recursos sob controle do Congresso. Ainda assim, sua gestão registra os maiores volumes de liberação de emendas parlamentares da história recente.

Para 2026, a previsão é que as emendas parlamentares alcancem cerca de R$ 50 bilhões, valor equivalente a aproximadamente 20% dos recursos federais destinados a investimentos e custeio da administração pública. Desse montante, R$ 26,6 bilhões correspondem às emendas individuais, parte das quais poderá ser destinada a projetos escolhidos diretamente pela população caso a proposta seja aprovada.

Além disso, o governo pretende criar uma reserva orçamentária específica para financiar o programa de orçamento participativo. A medida exigirá a redistribuição de recursos atualmente previstos para outras áreas do Orçamento da União. 

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