Governo autorizou testes para elevar de 32% para 35% a presença de etanol na gasolina; carros antigos concentram maior risco de corrosão, falhas e necessidade de adaptações
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| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil |
O governo autorizou o início de testes para avaliar o aumento da mistura de etanol na gasolina comum, dos atuais 32% para até 35%. A mudança ainda depende do cumprimento de novas etapas antes de uma eventual adoção nos postos, mas já desperta preocupação entre motoristas e especialistas em mecânica automotiva.
A principal atenção está voltada para veículos mais antigos, especialmente modelos originalmente projetados para funcionar apenas com gasolina. Segundo especialistas, o aumento da concentração de etanol pode favorecer corrosão, desgaste de componentes e alterações no funcionamento do motor.
Automóveis mais novos também podem sentir os efeitos da mudança, ainda que em menor intensidade. Entre as consequências mais perceptíveis para o motorista estão o aumento do consumo e a redução da autonomia dos veículos movidos exclusivamente a gasolina.
O técnico e professor de mecânica automotiva Tenório Júnior explica que o acréscimo de etanol pode dificultar o aproveitamento ideal do combustível em motores desenvolvidos para gasolina.
Isso ocorre, entre outros fatores, por causa das diferenças na taxa de compressão. Motores preparados para utilizar etanol costumam operar com taxas mais elevadas, enquanto os movidos apenas a gasolina foram projetados para condições diferentes.
De acordo com Tenório, uma combinação inadequada pode provocar perda de potência, falhas de funcionamento e maior dificuldade nas partidas a frio. Os efeitos seriam semelhantes aos já discutidos com a adoção da gasolina com 32% de etanol, porém potencialmente mais intensos com a mistura de 35%.
Carburadores estão entre os componentes mais vulneráveis
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| Carburador aberto com corrosão (parte áspera e clara) por etanol — Foto: Bruno Bandeira/arquivo pessoal |
Nos veículos antigos, o carburador aparece como um dos componentes que mais preocupam os profissionais. Diferentemente dos sistemas eletrônicos modernos, ele não consegue realizar ajustes automáticos de acordo com as características do combustível.
A quantidade de ar e combustível que passa pelo carburador é definida por ajustes mecânicos, o que torna mais difícil compensar alterações significativas na composição da gasolina.
Além da perda de desempenho, existe risco de corrosão em materiais que não foram desenvolvidos para permanecer em contato com concentrações maiores de etanol.
Tanques metálicos podem exigir atenção
Outro componente vulnerável em automóveis antigos é o tanque de combustível, principalmente quando produzido em metal.
O contato com um combustível com maior concentração de etanol e a presença de umidade podem acelerar processos de oxidação. Dependendo do estado do componente, pode ser necessária até mesmo a substituição do tanque.
Nos veículos mais recentes, os tanques geralmente são produzidos em plástico, reduzindo esse tipo de preocupação.
Bomba de combustível pode sofrer corrosão
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| Bomba de combustível com corrosão pelo etanol — Foto: Bruno Bandeira/arquivo pessoal |
A bomba de combustível também está entre os componentes que podem ser afetados.
O etanol presente na gasolina admite determinada quantidade de água em sua composição. Além disso, quando o automóvel permanece parado por períodos prolongados, o combustível pode absorver umidade do ambiente.
Esse processo pode favorecer a corrosão da bomba e atingir outros componentes internos do tanque, como a boia responsável pela indicação do nível de combustível.
Bicos injetores podem trabalhar mais
Nos veículos equipados com injeção eletrônica, a central do motor pode aumentar o tempo de abertura dos bicos injetores para compensar o menor poder energético de uma mistura com mais etanol.
Segundo Alexandre Dias, mecânico e proprietário das oficinas Guia Norte, esse aumento da demanda pode evidenciar problemas já existentes.
Bicos parcialmente obstruídos, por exemplo, podem provocar falhas de funcionamento, perda de desempenho ou irregularidade na marcha lenta.
Velas e catalisador também podem sentir efeitos
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| Velas de ignição com corrosão pelo etanol — Foto: Bruno Bandeira/arquivo pessoal |
As velas de ignição tendem a apresentar problemas principalmente quando já estão desgastadas.
Com uma mistura que exige maior precisão na queima, componentes em condições inadequadas podem favorecer falhas na combustão.
O catalisador também pode ter sua durabilidade comprometida quando recebe combustível que não foi corretamente queimado dentro do motor. Esse combustível residual aumenta a temperatura e o esforço sobre o componente.
Mangueiras e vedações exigem cuidados em modelos antigos
Mangueiras, retentores, juntas e outros elementos de vedação também podem sofrer desgaste mais rápido em veículos antigos.
Alguns desses materiais foram produzidos em uma época em que a gasolina brasileira possuía uma proporção muito menor de etanol. Com o aumento progressivo da mistura, determinadas borrachas podem apresentar ressecamento, deformação ou perda da capacidade de vedação.
Adaptação é possível, mas pode ser trabalhosa
Nos veículos com injeção eletrônica, uma das alternativas pode ser a atualização da ECU, conhecida como módulo de injeção, para permitir que o motor trabalhe de maneira mais adequada com uma eventual gasolina E35.
A manutenção preventiva também passa a ter papel ainda mais importante, especialmente no sistema de alimentação, ignição e injeção.
Para carros carburados, a adaptação é mais complexa. Pode ser necessário alterar componentes como os giclês, responsáveis pela passagem de ar e combustível.
O problema é que não existe uma configuração padronizada para todos os modelos. Os ajustes precisam ser realizados de acordo com as características de cada motor, com sucessivos testes até que seja encontrada uma regulagem adequada.
Especialistas alertam que, caso a proporção de etanol continue aumentando ao longo dos próximos anos, alguns veículos antigos originalmente projetados para gasolina poderão exigir modificações cada vez maiores para continuar funcionando de forma adequada.
Fonte: G1



