“Machosfera”: grupos misóginos na internet atraem jovens e reacendem debate sobre violência contra mulheres

Comunidades online como “Red Pill”, “Incel” e “MGTOW” difundem discursos de superioridade masculina, enquanto autoridades investigam conteúdos que incentivam agressões nas redes sociais

Casos de violência contra mulheres e conteúdos na internet que propagam ódio reacenderam debate sobre misoginia  • Montagem CNN Brasil

O crescimento de comunidades digitais que promovem discursos de ódio contra mulheres voltou ao centro do debate público após casos recentes de violência de gênero e a circulação de conteúdos nas redes sociais que incentivam comportamentos agressivos. Esses grupos, frequentemente reunidos em fóruns, redes sociais e aplicativos de mensagens, formam o que especialistas e pesquisadores passaram a chamar de “machosfera”.

O termo é utilizado para identificar um conjunto de comunidades online que compartilham ideologias misóginas, defendendo a superioridade masculina, a submissão feminina e criticando políticas de igualdade de gênero. Esses espaços virtuais têm atraído principalmente jovens, influenciando comportamentos e reforçando narrativas hostis em relação às mulheres.

O debate ganhou força após um caso de estupro coletivo registrado no Rio de Janeiro, além da disseminação de conteúdos que simulam ou incentivam agressões contra mulheres em plataformas digitais.

O que é a chamada “machosfera”

A chamada machosfera não é um grupo único, mas sim um conjunto de subculturas digitais que compartilham visões semelhantes sobre relações entre homens e mulheres. Entre os principais núcleos citados por especialistas estão movimentos como Red Pill, Incel e MGTOW, cada um com características próprias, mas todos marcados por discursos críticos às mulheres e às políticas de igualdade de gênero.

Esses grupos se organizam em comunidades virtuais onde compartilham conteúdos, narrativas e interpretações sobre relacionamentos, sexualidade e papéis sociais.

Red Pill: a ideia de “acordar para a realidade”

Entre os movimentos associados à machosfera, o mais conhecido é o Red Pill. O termo foi inspirado no filme Matrix, em que o protagonista escolhe entre duas pílulas: a azul, que simboliza permanecer em uma realidade confortável, e a vermelha, que representaria “enxergar a verdade”.

No contexto dessas comunidades, os adeptos da chamada “pílula vermelha” afirmam que teriam “despertado” para uma suposta realidade em que homens estariam sendo prejudicados socialmente e mulheres teriam privilégios nas relações afetivas e na sociedade.

Essa narrativa tem sido criticada por especialistas por reforçar estereótipos e promover visões distorcidas sobre igualdade de gênero.

Incel: celibatários involuntários e discurso de ódio

Outro grupo frequentemente citado nesse universo é o dos Incels, sigla derivada da expressão em inglês involuntary celibate (“celibatário involuntário”).

Integrantes desse movimento afirmam que não conseguem estabelecer relações afetivas ou sexuais porque seriam rejeitados pelas mulheres. A partir dessa visão, alguns membros desenvolvem discursos de ressentimento e hostilidade.

De acordo com a ONU Mulheres, comunidades incel difundem ideias extremistas e chegam a defender que homens teriam “direito” ao sexo, culpando mulheres por negarem esse acesso. Segundo a organização, esse ambiente pode estimular comportamentos violentos e se associar a outras ideologias discriminatórias, como racismo e homofobia.

MGTOW: afastamento da sociedade e das relações

O movimento MGTOW, sigla para Men Going Their Own Way (“homens seguindo seu próprio caminho”), também faz parte da chamada machosfera.

Nesse grupo, os participantes defendem que a sociedade estaria estruturada contra os homens e que a melhor forma de lidar com isso seria evitar relacionamentos com mulheres e reduzir a interação social.

Embora alguns membros apresentem o movimento como uma filosofia de desenvolvimento pessoal, críticos apontam que muitos conteúdos ligados ao MGTOW incluem ataques a leis de proteção às mulheres e críticas às políticas de igualdade de gênero.

Trend investigada pela Polícia Federal

O debate sobre a influência dessas comunidades ganhou nova dimensão após a viralização da trend “Caso ela diga não”, investigada pela Polícia Federal.

Nos vídeos que circularam nas redes sociais, homens encenavam gestos românticos e, após uma suposta rejeição feminina, simulavam reações violentas, como socos, facadas ou disparos.

A Diretoria de Crimes Cibernéticos da PF abriu inquérito para investigar a disseminação do conteúdo, que pode configurar incentivo à violência contra mulheres. Alguns perfis que divulgaram os vídeos já foram derrubados, e o material começou a ser removido das plataformas.

A Polícia Federal também solicitou a preservação de dados das publicações, que poderão ser utilizados nas investigações.

Debate no Congresso

A repercussão do caso também chegou ao Congresso Nacional. A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados analisa um requerimento para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue a circulação da trend.

O pedido, apresentado pelo deputado Pedro Campos (PSB), propõe ainda que plataformas digitais forneçam informações sobre o alcance das publicações, autoria dos conteúdos e medidas adotadas para conter sua disseminação.

Violência contra mulheres no Brasil

A discussão sobre a influência de discursos misóginos na internet ocorre em meio ao aumento dos índices de violência de gênero no país.

Dados recentes apontam que o Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios da última década. Foram 1.568 mulheres assassinadas por razões relacionadas ao gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024.

O número representa uma média de quatro mulheres mortas por dia no país.

Resposta das plataformas digitais

Em nota, o TikTok informou que removeu os conteúdos relacionados à trend assim que identificados, afirmando que a plataforma não permite discurso de ódio nem incentivo à violência.

A empresa declarou ainda que equipes de moderação continuam monitorando publicações relacionadas ao tema e reforçou que investe em medidas para manter a segurança da comunidade digital.

Especialistas em segurança digital e direitos humanos afirmam que o combate à violência de gênero na internet exige ação conjunta entre autoridades, plataformas e sociedade, incluindo monitoramento de conteúdos, educação digital e políticas públicas voltadas à prevenção da violência.

Fonte: CNN Brasil

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