Gravuras rupestres em forma de pegadas despertam interesse científico e mobilizam ações de preservação no interior do estado
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| Fotos: Eduardo Magalhães/FUNBIO |
No sertão do Piauí, entre formações rochosas e caminhos ancestrais, um conjunto de gravuras rupestres tem mobilizado pesquisadores, trilheiros e moradores locais em torno de um objetivo comum: proteger um patrimônio que pode revelar capítulos ainda desconhecidos da história natural e cultural do Nordeste brasileiro.
As marcas, talhadas em rochas no povoado Malhada de Pedras, na região de São João da Fronteira, lembram pegadas de aves, mais especificamente de animais tridáctilos, aqueles com três dedos em cada pata. Espalhadas em um leito de rio, essas inscrições chamam atenção não apenas pela forma, mas pelo potencial científico que carregam. Ainda sem datação confirmada, elas são tratadas como um possível elo com a fauna que habitou a região em tempos remotos.
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| Fotos: Eduardo Magalhães/FUNBIO |
A iniciativa de proteção ganhou força em julho de 2025, quando um grupo solicitou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a catalogação e preservação do sítio. O órgão confirmou que, até o momento, não há uma datação oficial das gravuras, o que amplia o mistério e o valor das descobertas.
Embora os moradores já conhecessem as marcas desde a década de 1980, batizando o local de “Pés de Ema”, foi apenas recentemente que o sítio passou a receber atenção acadêmica mais sistemática. Em fevereiro de 2024, o professor Gerson Meneses, do Instituto Federal do Piauí, visitou a área após ser alertado pela comunidade.
Segundo ele, o que encontrou foi um conjunto expressivo de registros entalhados diretamente na rocha. “A predominância de formas tridáctilas, semelhantes a pegadas de aves, dá nome ao sítio e reforça sua singularidade”, explicou o pesquisador, que já catalogou mais de cem sítios arqueológicos no estado.
O destaque recente da área também está ligado à inauguração da trilha Caminhos da Ibiapaba, uma rota de 186 quilômetros que atravessa o Piauí e o Ceará. A trilha conecta diferentes biomas, caatinga, mata atlântica e cerrado, e integra uma iniciativa conjunta dos Ministérios do Meio Ambiente e do Turismo, além do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
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| Fotos: Eduardo Magalhães/FUNBIO |
Mais do que um percurso turístico, a rota resgata trajetos históricos utilizados por tropeiros e comerciantes, ao mesmo tempo em que promove a valorização do patrimônio natural e cultural. Ao longo do caminho, visitantes encontram mirantes, cachoeiras, grutas, formações rochosas e outros sítios arqueológicos, compondo um cenário de grande diversidade e riqueza.
Foi nesse contexto que a estudante Carla Tessiane Barbosa, da Universidade Federal do Piauí, participou de uma ação de educação patrimonial em julho de 2025. Durante a atividade, ela dialogou com moradores e contribuiu para o cadastro dos sítios junto ao Iphan.
Barbosa destacou que o estado de conservação das gravuras exige atenção. A presença de lodo sobre as rochas e o descarte de lixo nas proximidades indicam riscos ao patrimônio. Ainda assim, ela ressalta o valor simbólico das representações. Para a estudante, as gravuras podem revelar relações profundas entre os povos antigos e os animais da região, indo além da simples observação da natureza.
“A representação das pegadas pode indicar vínculos culturais, afetivos ou até espirituais com a fauna local”, afirmou.
A mobilização em torno da preservação também alcançou os proprietários da área. Antônio Carlos Feitoza, um dos donos do terreno, reconhece a mudança de percepção ao longo do tempo. O que antes parecia apenas um desenho sem importância hoje é entendido como parte da história coletiva.
A expectativa agora recai sobre as próximas ações do Iphan. A superintendência do órgão no Piauí informou que uma equipe técnica será enviada ao local para avaliar o estado de conservação e propor medidas de proteção e mitigação de impactos.
Enquanto isso, pesquisadores, trilheiros e moradores seguem como guardiões informais desse patrimônio. Em meio ao sertão, as marcas na pedra continuam silenciosas, mas carregadas de histórias que ainda aguardam para ser plenamente decifradas.
Fonte: Cidade Verde


