Polícia investiga suposto desvio de verba municipal para filme sobre Bolsonaro

Operação apura contrato de R$ 108 milhões do programa Wi-Fi Livre e suspeita que recursos públicos possam ter financiado a produção do longa “Dark Horse”

Polícia investiga se dinheiro de contrato da prefeitura com ONG foi desviado para custear o filme "Dark Horse" Imagem: Reprodução


A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1º) a Operação Wi-Fi para investigar possíveis irregularidades em um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade responsável pela execução do programa Wi-Fi Livre em comunidades da capital paulista. Entre as suspeitas apuradas está o eventual desvio de recursos públicos para financiar o filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As investigações concentram-se no contrato nº 01/SMIT/2024, celebrado entre o ICB e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT). O acordo previa a instalação e manutenção de milhares de pontos públicos de internet em áreas periféricas da cidade e, segundo a polícia, teve seu valor ampliado por meio de aditivos, chegando a R$ 157,1 milhões.

De acordo com o inquérito, ao menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem comprovação efetiva da prestação dos serviços contratados. Os investigadores buscam agora rastrear a destinação desses recursos e verificar se parte dos valores foi utilizada para custear a produção cinematográfica do longa “Dark Horse”.

A ONG investigada é presidida por Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme. Segundo relatório policial, há indícios de possível confusão patrimonial entre as duas estruturas, o que motivou pedidos judiciais para aprofundar a análise das movimentações financeiras.

O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª Delegacia de Investigações sobre Crimes contra a Administração Pública (DICCA), solicitou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) a elaboração de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) para identificar o fluxo dos recursos e eventuais transferências suspeitas.

A polícia sustenta que a produção do filme, gravado em inglês e com participação de profissionais ligados à indústria cinematográfica norte-americana, possui orçamento estimado entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões, sem que a origem integral dos recursos privados empregados tenha sido esclarecida durante as investigações.

Os investigadores também apontam a existência de conexões empresariais da produtora no exterior, incluindo uma empresa registrada na Flórida, nos Estados Unidos, circunstância que, segundo a autoridade policial, aumenta o risco de ocultação patrimonial e eventual transferência de recursos para fora do país.

Além da apuração sobre possível desvio de verbas municipais, o filme já vinha sendo alvo de outras controvérsias. Reportagens recentes revelaram negociações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro para obtenção de recursos destinados à produção. O projeto também possui roteiro assinado pelo deputado federal Mário Frias, que destinou emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, fato que já é objeto de análise no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

Durante a operação, foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao instituto, à produtora Go Up Entertainment, à empresária investigada e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

Outro ponto investigado é a própria contratação do ICB. Conforme a polícia, a entidade não possuía histórico relevante na área de telecomunicações antes da celebração do contrato, tendo atuação predominante em feiras literárias e eventos culturais e religiosos. A investigação apura se houve direcionamento no chamamento público, que teve apenas uma participante.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo negou qualquer irregularidade e afirmou que o contrato foi celebrado dentro dos princípios da legalidade, transparência e economicidade. A administração municipal informou ainda que toda a documentação referente ao programa está disponível em sistemas públicos de consulta e destacou que o serviço continua funcionando normalmente.

A prefeitura também contestou informações sobre a quantidade de pontos de internet contratados e sustentou que os aditivos posteriores tiveram como objetivo a manutenção da infraestrutura já existente, não a ampliação para 5 mil pontos. Segundo a gestão municipal, os custos atuais do programa são inferiores aos apresentados em propostas anteriores analisadas pela administração.

Fonte: UOL

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