Estudo da Universidade de Chicago aponta Norte e Nordeste como regiões mais vulneráveis; fenômeno pode provocar mais de 451 mil mortes em todo o mundo
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| Pessoas se protegem do sol no centro da cidade em dia de calor no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil |
O calor extremo associado ao Super El Niño de 2026-2027 pode provocar cerca de 13,3 mil mortes adicionais no Brasil até fevereiro de 2027, segundo projeção do Climate Impact Lab, grupo de pesquisa ligado à Universidade de Chicago. No cenário global, a estimativa ultrapassa 451 mil mortes relacionadas às temperaturas extremas, com maior impacto previsto sobre países do chamado Sul Global.
O fenômeno, marcado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, deve elevar significativamente a frequência e a intensidade dos dias de calor extremo nos próximos meses. Segundo os pesquisadores, o Brasil aparece como o país da América do Sul com maior mortalidade projetada em decorrência das temperaturas associadas ao atual El Niño.
Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e professor da Universidade de Chicago, afirma que os avanços nos modelos climáticos e econômicos permitem hoje estimar não apenas os impactos do calor sobre setores como a agricultura, mas também sobre a mortalidade humana.
Segundo Greenstone, as centenas de milhares de mortes projetadas representam pessoas em suas atividades cotidianas, incluindo famílias, trabalhadores e comunidades inteiras. Para o pesquisador, as estimativas permitem identificar as áreas onde ações emergenciais podem reduzir de forma significativa o número de vítimas.
Brasil está entre os países mais atingidos
A projeção aponta que o Brasil poderá registrar 13,3 mil mortes adicionais relacionadas ao calor, número que coloca o país entre os mais afetados pelo fenômeno. O período de maior atenção deverá coincidir com o verão brasileiro, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
As regiões Norte e Nordeste aparecem entre as áreas de maior vulnerabilidade. O levantamento citado na divulgação do estudo estima impacto especialmente elevado em estados como Pará, Maranhão, Amazonas e Bahia.
A combinação de temperaturas elevadas, vulnerabilidade socioeconômica, infraestrutura disponível e capacidade local de adaptação está entre os fatores considerados pelos pesquisadores para estimar os efeitos do calor sobre diferentes populações.
Impactos se concentram no Sul Global
O levantamento mostra que a maior parte das mortes relacionadas ao Super El Niño deverá ocorrer em países de renda baixa e média, especialmente na África, Ásia e América Latina.
Na região africana do Sahel, a estimativa chega a aproximadamente 66,8 mil mortes adicionais. A Nigéria pode concentrar quase metade desse total, com 31,4 mil mortes, seguida pelo Sudão, com 17,5 mil, Níger, com 10 mil, e Chade, com aproximadamente 8 mil.
No Sudeste Asiático, Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja podem somar cerca de 19,4 mil mortes adicionais relacionadas ao calor. A Indonésia, isoladamente, pode registrar outras 19,3 mil mortes, enquanto a Índia tem projeção de aproximadamente 15,8 mil vítimas adicionais.
Os pesquisadores destacam que a distribuição dos impactos evidencia a maior exposição das populações que dispõem de menos recursos para enfrentar temperaturas extremas, seja por limitações no acesso à climatização, infraestrutura de saúde, sistemas de alerta ou outras medidas de adaptação.
Calor atual antecipa cenário das próximas décadas
Para os responsáveis pelo estudo, o Super El Niño também funciona como uma espécie de antecipação das condições climáticas que poderão se tornar mais frequentes nas próximas décadas caso continue o avanço do aquecimento global.
A Universidade de Chicago descreve o atual episódio como um possível retrato antecipado de um futuro marcado por temperaturas mais elevadas e pela necessidade crescente de adaptação das cidades e dos sistemas de saúde.
Os pesquisadores alertam ainda que as estimativas podem aumentar caso o fenômeno permaneça intenso por mais tempo do que o previsto.
Alertas, hidratação e centros de resfriamento podem reduzir mortes
Entre as medidas recomendadas para diminuir a mortalidade estão a implantação de sistemas de alerta para ondas de calor, criação de centros climatizados ou de resfriamento, ampliação de pontos públicos de hidratação e adoção de estratégias específicas para proteger idosos, crianças, trabalhadores expostos ao sol e outras populações vulneráveis.
A avaliação do Climate Impact Lab é de que ações emergenciais direcionadas às regiões de maior risco poderiam evitar dezenas de milhares de mortes nos próximos meses.
Ao mesmo tempo, os cientistas defendem políticas permanentes de adaptação, argumentando que respostas emergenciais isoladas não serão suficientes caso episódios de calor atualmente considerados extremos passem a fazer parte da rotina climática.
As projeções foram elaboradas com base em estudos que relacionam temperatura e mortalidade em diferentes partes do mundo. Os modelos levam em consideração características climáticas locais, vulnerabilidade das populações e capacidade de adaptação de cada país ou região.
O relatório reforça que os números são projeções e não uma contagem antecipada de mortes inevitáveis. O resultado efetivo dependerá da intensidade e duração do fenômeno, das condições locais e, principalmente, das medidas de prevenção e adaptação adotadas pelos governos e pela população.
Fonte: Agência Brasil
