Presidente avalia desgaste institucional, critica sigilo do inquérito e diz a aliados que investigação não pode ser abafada
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| Foto: EPA-EFE/REX/Shutterstock |
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem manifestado, nos bastidores, crescente irritação com a atuação do ministro Dias Toffoli na relatoria do inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master, atualmente sob análise do Supremo Tribunal Federal.
Segundo relatos de auxiliares próximos, Lula acompanha de perto o andamento do caso e os desdobramentos políticos e institucionais da investigação. Nos últimos dias, o presidente teria feito comentários considerados duros sobre Toffoli em conversas reservadas com ao menos três aliados, chegando a afirmar, em tom de desabafo, que o ministro deveria renunciar ao cargo ou se aposentar da Corte.
Ainda de acordo com essas fontes, Lula não demonstra disposição em defender publicamente Toffoli das críticas que vêm sendo direcionadas à sua condução do processo. O presidente também teria sinalizado a intenção de chamar o ministro para uma nova conversa sobre sua postura no inquérito, tema que já havia sido discutido entre ambos no fim do ano passado.
Apesar das declarações mais contundentes, interlocutores do Planalto avaliam que é improvável que Lula formalmente peça o afastamento de Toffoli do STF ou a sua saída da relatoria. O incômodo central do presidente estaria ligado ao desgaste institucional imposto à Suprema Corte, especialmente após reportagens que revelaram vínculos de familiares do ministro com fundos de investimento relacionados ao Banco Master.
Aliados relatam que Lula também se queixou do grau elevado de sigilo imposto ao processo e demonstrou receio de que a investigação acabe sendo esvaziada. Para o presidente, o governo precisa sustentar o discurso de combate a fraudes e irregularidades, sem distinção entre poderosos e cidadãos comuns. Em conversa recente, Lula teria afirmado que “não é possível continuar vendo o pobre ser sacrificado enquanto um cidadão ligado ao Banco Master teria provocado um rombo bilionário”.
Há, ainda, no entorno presidencial, a percepção de que o caso pode atingir políticos da oposição, mas que a apuração deve avançar mesmo que atinja aliados do governo. O empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, mantém relações com figuras do centrão e também com integrantes do campo governista, especialmente na Bahia. Entre os nomes citados está o empresário Augusto Lima, ex-sócio do banco, próximo do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do senador Jaques Wagner.
Desde o fim de 2025, Lula monitora pessoalmente a evolução do inquérito. Ele teria ficado especialmente intrigado com a decisão de Toffoli de impor sigilo rigoroso a um pedido da defesa de Vorcaro para transferir as investigações ao STF. A medida foi tomada poucos dias antes da revelação de que o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes mantinha contrato milionário para atuar em causas relacionadas ao banco, o que ampliou o clima de desconfiança em torno do caso.
Em dezembro, Lula chegou a convidar Toffoli para um almoço no Palácio do Planalto, que contou com a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Segundo relatos, o encontro foi descrito como cordial, mas o presidente teria sido direto ao afirmar que tudo o que fosse descoberto deveria ser levado “às últimas consequências”. Lula buscava entender se essa também seria a postura do STF, mesmo com o sigilo decretado.
Na ocasião, Toffoli teria assegurado que nada seria abafado e que o sigilo era necessário para preservar a investigação. Lula, por sua vez, afirmou acreditar que o ministro faria “a coisa certa” e teria dito que a relatoria representava uma oportunidade para Toffoli “reescrever sua biografia”.
Desde então, novas revelações passaram a pressionar ainda mais o ministro, incluindo críticas ao regime de sigilo, a uma viagem em jatinho com advogado ligado ao caso e a negócios envolvendo familiares e fundos associados ao Banco Master. A interlocutores, Toffoli tem afirmado que não vê qualquer elemento que comprometa sua imparcialidade e, por isso, descarta se afastar do processo.
O ministro sustenta que nem a viagem nem as relações empresariais de seus irmãos configuram impedimento legal. Historicamente, o STF só reconheceu impedimentos ou suspeições de ministros quando há autodeclaração.
Indicado ao Supremo por Lula, Toffoli é visto pelo presidente como uma decepção acumulada ao longo dos anos. Entre os episódios lembrados está a decisão que impediu Lula de comparecer ao velório do irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, em 2019, quando o presidente estava preso em Curitiba. Toffoli pediu desculpas pelo episódio apenas em dezembro de 2022, após a eleição de Lula, gesto que não apagou completamente o desgaste na relação entre os dois.
Fonte: Folha de São Paulo
