Nova sobretaxa atinge parte das exportações do Brasil, mantém itens estratégicos fora da lista e amplia tensão comercial entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva
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| O presidente dos EUA, Donald Trump Imagem: Yves Herman |
Os Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira uma nova tarifa de 25% sobre parte dos produtos importados do Brasil. A medida é resultado de uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), iniciada há cerca de um ano por determinação do presidente Donald Trump. A nova alíquota passa a valer em 22 de julho para os produtos que não fazem parte da lista de exceções divulgada pelo governo norte-americano.
Na prática, a medida deve atingir menos de 20% das exportações brasileiras destinadas ao mercado dos EUA. Produtos considerados estratégicos para a economia americana, como aeronaves, carne bovina, café em grãos e suco de laranja, ficaram de fora da sobretaxa, evitando impactos mais severos sobre a inflação nos Estados Unidos.
O anúncio já era esperado após uma rodada de negociações entre representantes do USTR e integrantes dos ministérios brasileiros do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), das Relações Exteriores (MRE) e da Assessoria Especial da Presidência da República. Segundo relatos de participantes, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, sinalizou que as posições dos dois países permaneciam distantes e indicou que uma nova tarifa seria anunciada.
Apesar da decisão, integrantes do governo Trump afirmaram que ainda existe espaço para um acordo. Segundo uma autoridade norte-americana, Washington apresentou diferentes propostas ao longo dos últimos meses, mas considerou que o governo brasileiro demorou a se engajar efetivamente nas negociações. Ainda assim, o representante classificou as reuniões realizadas nas últimas semanas como "construtivas".
De acordo com negociadores brasileiros, os Estados Unidos não detalharam de forma objetiva quais seriam as exigências para um entendimento, mesmo após cinco reuniões realizadas desde maio entre representantes dos dois governos.
Big techs, Pix e desmatamento estão entre as críticas
Entre os principais pontos levantados pelos Estados Unidos estão questões relacionadas ao combate ao desmatamento, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo plataformas digitais, o sistema de pagamentos Pix e acordos comerciais firmados pelo Brasil com outros países.
O governo Trump voltou a afirmar que decisões da Justiça brasileira obrigando empresas de tecnologia americanas a remover conteúdos e perfis configurariam barreiras ao comércio digital. Também criticou a possibilidade de aplicação de multas e sanções às plataformas que descumprem determinações judiciais no Brasil.
Outro alvo das críticas foi o Pix. Segundo autoridades americanas, o sistema de pagamentos desenvolvido e operado pelo Banco Central do Brasil teria recebido tratamento privilegiado, prejudicando empresas dos Estados Unidos que oferecem serviços concorrentes no setor financeiro.
Brasil apresentou propostas, mas descartou negociar Pix e regulação digital
Durante as negociações, o governo brasileiro apresentou um conjunto de medidas para tentar reduzir as tensões comerciais. Entre elas estavam o compromisso de manter ações de combate ao desmatamento, propostas de redução de tarifas para setores como máquinas, equipamentos médicos e tecnologia da informação, além da possibilidade de diminuir tarifas sobre o etanol norte-americano em troca de maior acesso do açúcar brasileiro ao mercado dos EUA.
Essas alternativas, porém, não avançaram. Segundo o lado brasileiro, temas como o Pix e a regulação das plataformas digitais foram considerados assuntos internos e, por isso, não entraram na pauta de negociação.
EUA alertam contra eventual retaliação
Embora o governo brasileiro tenha sinalizado a possibilidade de utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica para responder à medida, autoridades americanas afirmaram que não esperam uma retaliação.
Segundo integrantes da gestão Trump, uma resposta comercial do Brasil poderia levar Washington a endurecer ainda mais as medidas tarifárias. O governo americano argumenta que adotou uma ação limitada, sem sobretaxar todas as exportações brasileiras, e defende que o diálogo continua sendo o melhor caminho para resolver o impasse.
Brasil pode enfrentar nova sobretaxa
Além da tarifa de 25%, o Brasil ainda poderá ser atingido por outra investigação conduzida pelo USTR relacionada à importação de produtos fabricados com suposto uso de trabalho forçado. Caso seja confirmada, uma nova taxa de 12,5% poderá ser aplicada nos próximos dias, elevando a carga tarifária total sobre determinados produtos brasileiros para até 37,5%.
Especialistas avaliam que essa nova investigação pode substituir as tarifas temporárias de 10% adotadas anteriormente pelos Estados Unidos, cuja validade termina em 24 de julho.
Tema também ganha dimensão política
A disputa comercial também repercutiu no cenário político brasileiro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, esteve recentemente nos Estados Unidos para defender o cancelamento das tarifas e participou de reuniões com autoridades americanas.
Segundo relatos divulgados pela imprensa, Flávio argumentou que novas sanções comerciais poderiam fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos bastidores, entretanto, aliados reconheceram que as chances de reverter a decisão eram reduzidas diante da importância que a política tarifária passou a ter para o governo Trump.
No Palácio do Planalto, auxiliares de Lula avaliam responder politicamente ao episódio, voltando a responsabilizar integrantes da família Bolsonaro pelo início da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos, enquanto estudam eventuais medidas de reciprocidade previstas na legislação brasileira.
Fonte: UOL
